A Turquia atraiu 7,9 biliões dólares de receita proveniente de fontes inexplicáveis durante os primeiros oito meses de 2014, se comparada com uma saída de 90 milhões de dólares no mesmo período do ano anterior, de acordo com os dados do banco central turco. Nos três meses que se seguiram, foram 5,6 bilhões dólares que deixaram o país. Fluxos inexplicáveis de fundos estrangeiros para dentro e fora da economia - assinalados como "erros e omissões líquidas" na balança de pagamentos da Turquia - mostraram oscilações violentas durante os primeiros 11 meses de 2014. Em Novembro foram estimadas saídas de 3.460 milhões de dólares americanos, o maior êxodo mensal em mais de 16 anos, segundo dados do Banco Central Turco.


Enormes quantidades de entradas e saídas misteriosas levantam dúvidas sobre a capacidade da Turquia para financiar o seu défice em conta corrente, o que o governo tem chamado de economia "calcanhar de Aquiles". Note-se que não é incomum os países terem "erros e omissões líquidas" na sua balança de pagamentos. O que faz da Turquia um caso "intrigante" é quão grande esses fluxos são, em relação ao deficit em conta corrente do país, de acordo com Ipek Ozkardeskaya, um estratega de mercados emergentes da Swissquote Bank SA em Genebra.


Este défice, do que entra no país versus o que sai do país, que é a principal balança de comércio de bens e serviços, tem sido uma dor de cabeça enorme para a Turquia. Esteve próximo de 10 por cento do produto interno bruto da Turquia em 2011, o que levou os responsáveis políticos a tomar medidas para que os turcos comprassem menos bens importados. Enquanto o capital fresco - qualquer capital - ajuda a um país que precisa desesperadamente dele, o fato de ninguém saber de onde vem esse capital torna especialmente difícil prever quando vai desaparecer. E isso foi exactamente o que aconteceu nos últimos meses de 2014.


"Não há nenhuma maneira de prever o que vai acontecer com esses fluxos em 2015," comentou Mehmet Besimoglu, economista-chefe do Oyak Menkul Degerler, em Istambul. Besimoglu tem as suas próprias teorias acerca da origem do dinheiro e por que razão ele desaparece: as entradas podem estar ligadas a fugas de capital do Iraque e da Síria, onde o avanço do Estado Islâmico tem pressionado mais de 1,5 milhões de pessoas para a fronteira com a Turquia; as saídas tendem a ocorrer durante os períodos de valorização da lira, disse Mehmet Besimoglu.


Uma mudança radical no horizonte é uma eventual normalização da política monetária, ou seja, aumentos das taxas de juro nos EUA, como tem dito repetidamente o vice-primeiro-ministro turco, Ali Babacan, o aumento da taxa de juro nos EUA é a única e a mais importante ameaça para a economia turca este ano. Taxas mais elevadas na maior economia do mundo podem levar a uma mudança no apetite dos investidores por activos dos mercados emergentes, incluindo a Turquia, que dependem de capital estrangeiro para financiar os seus défices em conta corrente.


A firma Morgan Stanley classificou no ano passado a Turquia numa lista das "Cinco mais frágeis economias". Estes países são os mais vulneráveis numa retirada do investimento estrangeiro necessário para financiar o seu défice de capital que entra versus o capital que sai. A África do Sul, Indonésia, Índia e Brasil são os outros quatro. Misteriosos influxos foram maiores do que as saídas, em 22 dos últimos 29 anos em que o Banco Central turco manteve registos, reduzindo a necessidade de financiamento através de fontes oficiais.