Trinta mil pessoas fazem parte atualmente da comunidade surda em Portugal. Convém não esquecer outros intervenientes igualmente importantes na vida dos surdos: os familiares, professores, técnicos e educadores. A “ferramenta” que têm à sua disposição para comunicarem entre si e com o mundo exterior é a língua gestual portuguesa (LGP). O quebrar de barreiras para aproximar os surdos ao chamado mundo real não se alcança de um dia para o outro.

Em Portugal, durante um longo período de tempo, o governo não autorizava os surdos a comunicarem através da LGP, aliás, chegou mesmo a ser proibida. A comunicação era feita de uma forma clandestina. No entanto, não será correto (como muitas pessoas pensam) considerar a língua gestual universal. Convém não esquecer que as línguas orais desenvolveram-se com toda a naturalidade, o mesmo acontecendo com as comunidades surdas onde cada uma possui a sua forma de comunicar. Segundo o Google, existem países que possuem diversas formas de comunicarem, quer a norte, quer a sul, o mesmo acontecendo no resto do mundo.

Portanto, se um ouvinte tem notória dificuldade em perceber a mensagem da pessoa com deficiência auditiva, o mesmo se aplica aos surdos que comunicam com línguas gestuais diferentes. Existem aqui dois obstáculos, por um lado a comunicação com a sociedade, por outro, a comunicação entre surdos.   

A Constituição da República Portuguesa, na sua alínea h) do n.2 do artigo 74, diz: “na realização de política de ensino incumbe ao Estado proteger e valorizar a língua gestual portuguesa enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades.” Sabe-se, entretanto, que a realidade do dia a dia é bem mais cruel para os surdos e os muros existentes numa sociedade que também é sua permanecem. Seja como for, desde 1997 a LGP passou a figurar como uma das línguas oficiais de Portugal, onde se incluem, naturalmente, o português e o mirandês.

De referir ainda que a Associação Portuguesa de Surdos, fundada em 24/09/1958,através do seu presidente dr. Baltazar tem tido um papel de grande importância na defesa dos direitos das pessoas com deficiência auditiva. Esta organização promove o #Ensino da LGP, seminários, estabelecendo as pontes necessárias no sentido de encurtar as distâncias para a comunidade surda.   

Portugal tem 120.000 pessoas a perderem de forma gradual a audição (onde se incluem os idosos). Por outro lado, há ainda a acrescentar que são 30.000 os surdos com surdez severa e profunda. Curiosamente, na comunidade surda existem (desconhecidos da maior parte da população) gestos universais, tais como o “olá” e “bola”. As duas mãos têm um papel fundamental na perceção e descodificação das mensagens. Cada gesto significa, por exemplo, janela, cão, casa, e o alfabeto gestual só se utiliza quando se soletra o nome de uma localidade, de alguém ou sigla.

É errado pensar-se que a língua gestual e o seu alfabeto é universal. No entanto, apesar das diferenças entre as várias línguas gestuais espalhadas pelo mundo, no caso concreto o português, a LGP é uma ferramenta essencial. Uma aluna da Associação de Surdos chegou a dizer: “cada novo gesto é uma descoberta”. Uma outra, portadora de deficiência auditiva moderada (surdez neurossensorial bilateral) e que usa aparelhos em ambos os ouvidos, referiu que no seu caso o diagnóstico aponta para uma degradação do seu estado em relação ao futuro. Essa previsão criou nela a necessidade de aprender língua gestual, conhecimentos que já ensina em casa ao marido e filho.

A ligação dos surdos com o mundo exterior é através de um quadrado minúsculo que aparece na televisão onde está um intérprete de LGP. As pessoas com deficiência auditiva continuam à espera de um tempo novo onde possam sorrir e sem barreiras.