#Fernando Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888, há 125 anos - um século e um quarto - naquela casa do Largo de S. Carlos, no nº4, num 4º andar esquerdo, em frente ao Teatro do mesmo nome. No dia 21 de Julho de 1888 foi baptizado na Igreja dos Mártires. Nasceu, de facto, no coração de Lisboa, na aldeia do Largo de S. Carlos a ouvir o sino da Igreja:

Ó sino da minha aldeia

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro de minh'alma.

Perdeu um irmão, o Jorge, perdeu o pai, ambos tuberculosos e a mãe voltou a casar por procuração, em Dezembro de 1895 com o cônsul de Portugal em Durban.

Foi nesse princípio de 1896 que o poeta desembarcou no Circular Quais - o cais da cidade - e onde começou a sua vida em solo africano.

Publicidade
Publicidade

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe

Ah, a frescura das manhãs em que se chega

E a palidez das manhãs em que se parte…..

Foi aí que passou a sua infância nessa província do Natal, uma colónia britânica fundada por Sir Benjamim Durban, em 1846, com cerca de 28.000 habitantes.

Durban situava-se numa curva de uma vasta baía, local aprazível repleto de aves e de mangueiras onde existiam moradias no meio da floresta, a chamada Berea, onde Pessoa viveu no nº 10 e onde apreciou os íbis - essa ave do Egipto que mais tarde deu o nome a um dos seus sonhos e utopias, - a tipografia Íbis com dinheiros que herdou da avó paterna.

Por lá estudou, aprendeu a língua de Shakespeare, frequentou a Durban High School, dirigida pelo erudito Mr. Nicholas e foi aí que começou a dar os primeiros passos da sua aventura da escrita, onde passava horas a ler, a ler os clássicos, os poetas ingleses, onde bebeu todas as influências e onde escreveu os primeiros versos e, sempre com boas notas, chegou a receber o Queen Victoria Memorial Prize pelo trabalho que realizou sobre Macaulay.

Publicidade

Aos serões ouvia a mãe tocar piano - Un soir á Lima - e outras, acompanhada á flauta pelo marido.

E quando voltava a Lisboa revisitar a família, matava saudades do rio que corria aos seus pés.

" O Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia".

Chegou a passar nos Açores em 1901 onde a avó materna vivera e onde as touradas à corda estavam no auge.

A família chegou a viver na Av. D. Carlos e visitavam as tias, irmãs da mãe, na Quinta da Cruz Quebrada, onde se festejaram os seus catorze anos:

No tempo em que festejavam o dia dos seus anos

Ele era feliz e ninguém estava morto…

Mas a sua principal característica, já como homem, se é que ele teve alguma característica que se pode isolar, foi o seu enorme patriotismo, esse foi o seu lema, o seu leit motiv e perdeu-se num labirinto de sensações e contradições, abdicou da vida familiar, das horas certas, dos empregos fixos, das moradas eternas e dedicou-se à poesia e à escrita.

"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes a todos, a vontade.

Publicidade

Assim como sou, tenham paciência

Vão para o diabo sem mim

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo

Não me peguem no braço

Quero ser sozinho

Já disse que sou sozinho

Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia…"

Pode-se dizer que o seu drama em gente atravessou um deserto de areias movediças. Ele era o cameleiro-mor e dirigiu a sua caravana por entre escolhos e mares salgados, entre pedregulhos e tempestades de areia, entre noites gélidas e tardes escaldantes, quando um dos guias morria - um dos heterónimos -, logo outro surgia para arduamente lutar ombro a ombro e encontrar formas de contornar obstáculos na busca do oásis, duma verdade inacessível.

Trilhou caminhos vários, foi solitário dentro de si mesmo e, embora uma tibieza de vontade possa transparecer da sua maneira de ser, uma inquebrantável força e um elevado sentido patriótico, submetido a valores esotéricos e ocultos emanados por uma ordem superior, levaram-no a cumprir até ás últimas instâncias, a sua missão de poeta sonhador, profético, aglutinador de sensibilidades e pulverizador de reacções, e assim compôs poesias, teceu filosofias, prosas e teorias, retóricas, pensamentos textos comerciais, publicidade e astrologia, e espalhou desassossegos por esse mundo fora. E, porque a verdade não pode estar se ainda faltar alguma coisa, dispersou-se numa miríade de personagens que compunham a sua dramática mente efervescente e que desaguaram há muitos anos numa arca onde deixou 27.000 papéis por decifrar, interpretar e compor.

Viajou de sensação em sensação e tocou a alma do universo, porque em cada um de nós há um Fernando Pessoa. Ao leme, foi um génio, um dos poucos que Portugal deu ao mundo como disse Francisco Balsemão na entrega do Prémio Pessoa a Richard Zenith.

Aqui, neste Portugal a entristecer, o poeta engrandeceu a pátria e escreveu:

"Se depois de eu morrer quiserem escrever a minha biografia

Não há nada mais simples

Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte

Entre uma coisa e outra todos os dias são meus."

Só a Mensagem viu a luz do dia, como edição completa e premiada, enquanto foi vivo.

Tudo para ele era inconstância e mudança, tudo era mistério e estava cheio de significado, mas resolveu de tudo abdicar em prol da sua obra

Toma-me ó noite eterna nos teus braços

E chama-me teu filho

Eu sou um rei

Que voluntariamente abandonei

O meu trono de sonhos e cansaços

Se renunciou à vida como homem pragmático, aos lugares comuns, não abdicou como poeta e filósofo. A sua vida orienta-se cada vez mais num sentido quase monástico que o levou a cumprir uma missão: engrandecer Portugal

Fernando Pessoa foi um mestre do drama: realizou peças, encenou-as, caracterizou as personagens, orquestrou as suas nuances e deu-lhes vida no palco da sua mente. Formou a sua caravana em direcção ao oásis mítico, e as personagens surgiram nítidas e distintas, a sua vivência foi mais fácil, porque os seus interlocutores ajudaram a conduzir a caravana onde levou a sua caneta, e nos papéis sujos ou imaculados escreveu todas as sensações e todas as maneiras de sentir porque todas elas coexistiam na essência do seu ser, esse sim um deserto imenso. Sonhou, viajou, "outrou-se" e foi rei de si próprio.

Quando a caravana chegou ao fim, acabou a peça e fecharam-se as eclusas nos rios da sua mente.

Pediu os óculos, numa cama do Hospital de S. Luís, porque já lhe faltava a vida e a visão e escreveu na língua da sua infância " I know not what tomorrow will bring" e fechou-se o pano.

" E se tiverem a necessidade doentia de interpretarem a erva verde sobre a minha sepultura:

Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural".

A sua obra é de facto o maior testemunho da sua imortalidade.

Isabel Murteira França

"Os sonhos são o tecido de que somos feitos"

William Shakespeare #História