Nos grandes centros comerciais já cheira a Natal, um Natal artificial, desenhado para efeitos de vendas e construído sem o menor detalhe de espírito natalício. No interior das lojas o conteúdo de Outono está a ser alterado para produtos mais procurados no decorrer do Inverno. As camisas de cetim já foram trocadas pelas volumosas camisolas de lã. O Verão de São Martinho já só volta em 2015 e daqui até à Primavera (ou melhor até às temperaturas de Primavera) quem não gosta do Inverno ainda tem muito para sofrer.

Mas eu gosto do Inverno, do Inverno verdadeiro e não daquele que nos tentam impingir com o consumismo do século XXI e modernices que nos levam o dinheiro e nos deixam com o mesmo frio.

Publicidade
Publicidade

Delicia-me poder passar pela aldeia e observar as chaminés a emergir fumo, formando uma paisagem invernia com a representação da mais sagrada das realidades transmontanas desta estação do ano.

Em Trás-os-Montes não temos Invernos com mínimas de 12º ou 13º graus, temos Invernos com 12º e 13º graus de máxima. O vento que nos bate na cara é gélido e nestas alturas as conversas de exterior são mais reduzidas pois as palavras quase que congelam numa garganta repleta de analgésicos, antibióticos e rebuçados de mentol. Agrada-me a ideia das torradas feitas com as brasas do lume que me aquecem, e do convívio à volta da fogueira.

Não tarda começar-se-ão as matanças dos porcos caseiros, criados durante toda a época quente para agora munir as famílias de alimento. A tradição inclui também os tão saborosos fumeiros, incluindo os belos dos presuntos que muitos reservam para fazer as graças das festas do próximo verão e os colocam na mesa aos familiares que vêm do estrangeiro, matando saudades dos sabores da terra.

Publicidade

E as sanchas? Há quem não as aprecie muito como eu mas a verdade é que procurá-las torna-se um vício muito saudável. A verdade é que tenho imenso orgulho em ser transmontana, em acordar numa manhã de Inverno e olhar para os montes enevoados e os lameiros cobertos de um manto branco que a geada noturna tão bem soube produzir e que me arrepia.

O Inverno é uma boa altura para a reflexão mas é necessário contrariar a tendência depressiva associada a esta estação. Venham as botas, as galochas, as malhas, os sobretudos, as luvas, os gorros, os cachecóis e todas as outras "munições" contra o frio… que o Natal chegue com mais paz para as famílias e mais saúde.

Ponham e sintam-se lindos(as) nesta estação porque a vida só é bela quando assim o desejamos e para isso não é preciso ser Verão. Observem bem a chama de uma fogueira de Inverno e pensem em tudo o que ela vos transmite e vos faz sentir. Depois do processo concluído não acham dele um momento mágico?