Quando uma pessoa tem pouco dinheiro normalmente reduz nas despesas, tenta poupar ao máximo e, se possível, deixa ficar algum de parte na conta bancária, não vá o diabo tecê-las. A economia nacional, por sua vez, não pode seguir esta linha de comportamento, sendo que em alguns casos é até mesmo uma abordagem perigosa, no entanto é assim que as forças conservadoras querem hoje governar.

Ao contrário de um fractal, a macroeconomia não é um mero reflexo do micro ou da maneira como um único ser humano deve reagir face a uma crise, na medida em que o que é verdadeiro para um indivíduo quase nunca o é a uma escala maior, no caso para um grupo, uma sociedade ou uma nação.

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Muitos economistas parecem ver o mundo como uma folha de balanço, as receitas de um lado e as despesas do outro. Não existem seres humanos, processos, ou necessidades… só uma coluna de números que deve ser balanceada ou até mesmo deixar algum extra para dias piores.

Mas a economia é precisamente sobre as pessoas. A redução de custos é eficaz quando significa alcançar o mesmo ou até mais através de sistemas e processos mais eficientes. Por outras palavras, se podermos fazer as coisas funcionar impecavelmente com menos pessoas e a qualidade do serviço não for prejudicada ou for até mesmo melhorada, então eu sou totalmente a favor, apesar de alguns funcionários terem de pagar um preço pessoal durante o processo de reorganização.

Mas isto raramente se verifica, e vemos isso muito claramente na Europa, como resultado da crise atual.

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Muitos países europeus eram pobres antes da comunidade europeia ser criada. Moro em Portugal, um país que se situava no mais baixo nível de vida e uma das economias mais pobres sob qualquer critério possível.

Depois da criação da comunidade europeia, alguns políticos totalmente desconectados da realidade decidiram que, já que a maioria dos países europeus estará sob a mesma égide, então todos os países irão receber as mesmas condições e todos devem ter o mesmo padrão de vida, em suma, uma grande família feliz. Infelizmente, as coisas não funciona bem assim... quando construímos uma estrutura alta sem fundações, mais cedo ou mais tarde ela desabará esmagando todos os que estão no seu caminho.

Essa é a curta explicação da crise. Tentar colocar a Irlanda, Grécia e Portugal nos mesmos moldes que a França e a Alemanha é algo destinado a falhar redondamente. E se tentarmos subir artificialmente os padrões de vida dos países mais pobres sem fazer quaisquer ajustes ou modificações nas suas economias, significa que alguém vai ter que pagar por isso, forte e feio.

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Aqui em Portugal a qualidade de vida foi alimentada por um fluxo contínuo de empréstimos com uma taxa de juro ridícula de tão baixa, que muitos governos desde então têm usado de forma populista em vez de usar para o financiamento da indústria, empreendimentos, modificação de infra-estruturas, adaptação à tecnologia moderna e mercados, etc.

Então quando chegou a crise, Portugal e muitos daqueles que foram alimentados por essa procedência económica encontraram-se praticamente na mesma situação anterior à entrada na comunidade europeia, mas com uma tonelada de empréstimos para devolver e com os mesmos recursos de antes.

A famosa Troika enviou delegados para trazer ordem a Portugal, como se fosse uma criança irresponsável que gasta muita da riqueza da família. Então de onde, um país como Portugal, irá desenterrar o dinheiro necessário, perguntam vocês? Bem, o óbvio é claro, virá dos cortes de orçamento e impostos. Mencionei-vos que os cortes de orçamento significam privar as pessoas de serviços essenciais como a saúde e educação? E será que alguém sabe que o aumento de impostos significa que as pessoas são diretamente afetadas, especialmente as mais fragilizadas e já prejudicadas pelos cortes nos serviços essenciais?

Bem, acho que a Troika conhecia exatamente o significado dos seus atos, mas para eles isso é de somenos importância, porque se trata de uma questão de equilíbrio (Recorda-se… há que equilibrar a coluna das despesas e a coluna das receitas). E assim levaram a sua avante em Portugal, Grécia e outros.

Isto é apenas parte do problema. O mais grave é agora, depois que Portugal conseguiu equilibrar as colunas e a Troika disse aos líderes políticos de Portugal "Muito bem, rapazes!". Parece que tudo vai voltar à mesma rotina, tal como era antes da sua intervenção, com alguns cortes adicionais e impostos (palavras mágicas...) e o gasoduto prometido de empréstimos baratos irá renovar o seu curso.

Não me entendam mal; Não estou a sugerir que não se deve investir em Portugal ou que devam "expulsar" o país da comunidade europeia. A minha opinião é que, em tempos de crise, devemos parar com esta visão conservadora do absurdo corte no orçamento e aumento de impostos como meio de salvação da economia, porque na realidade tal não acontece, simplesmente sufoca o pouco que existe. O que é necessário são formas de investir na revitalização da economia, construir novas fábricas, promover o comércio e a exportação; disponibilizar fundos para ajudar os empresários a desenvolver novas opções, dar às pessoas uma oportunidade de aumentar a sua produtividade.

A triste realidade é que através dos métodos conservadores usados até agora só conseguiram reduzir o potencial de consumo em Portugal, provocando a morte súbita das pequenas empresas locais e reduzindo a possibilidade de encontrar trabalho decente no país. Os números mostram que, nos últimos 2 anos, mais de 250 mil pessoas deixaram o país porque não conseguiam viver aqui. Não devemos esquecer também que há um preço adicional a pagar quando tantas pessoas saem do país em termos de recursos de trabalho que já não estão à disposição da nação e, também, em termos da quantidade de contribuintes que estão agora em outro lugar.

Então o problema é claro e as soluções são ainda mais claras. Qual a direção que irá tomar? Espero que alguém tenha o bom senso para perceber que a sua abordagem está simplesmente errada e não está a resolver coisa alguma, talvez até estejam a criar um problema ainda maior. Estou um pouco cética, mas, talvez alguém nos surpreenda.