O Brasil, a Rússia, a China, a Índia e a África do Sul acordaram a criação de um banco de desenvolvimento, semelhante ao Banco Mundial que é liderado pelos Estados Unidos e pela Europa. É uma notícia discreta mas que promete uma transformação importante no panorama político internacional. O banco vai conceder empréstimos para infra-estruturas, sendo que cada um dos 5 países tem o mesmo peso no capital inicial (10 mil milhões de dólares). A decisão surgiu após uma reunão em Fortaleza, no passado mês de Julho. São duas as consequências imediatas desta notícia.

Em primeiro lugar, é um passo no sentido de um mundo mais pacífico.

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O acrónimo BRICS nasceu da constatação de que estes 5 países caminham para uma situação de paridade económica, financeira e política com os Estados Unidos e a Europa. Quer pelo seu desenvolvimento e pelo seu rápido e sustentando crescimento do PIB, quer pela brutal dimensão populacional de cada um deles (a África do Sul é o menor dos 5, mas tem sido aceite pelos restantes parceiros, sendo este Banco o passo mais recente). O facto de estes países concordarem na colaboração entre si num projecto tão decisivo como este é um sinal de que ninguém quer grandes guerras generalizadas, como no século XX. Nestes dias em que a tensão entre a Rússia e o Ocidente estão tão alta como nunca o esteve desde a Guerra Fria, é sem dúvida uma notícia para trazer algum alento. É preciso não esquecer que Índia e China travaram uma curta guerra no século XX, e que o mesmo sucedeu entre a Rússia e a China.

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Em segundo lugar, é um passo no surgimento gradual de um mundo mais equilibrado. O FMI e o Banco Mundial, onde as percentagens e as quotas de poder decisório são favoráveis aos EUA e à Europa, já não reflectem a sua diminuição relativa de importância. A Europa tem 18% do PIB Mundial e 27,5% de votos no FMI, enquanto os BRICS têm mais de 20% do PIB e cerca de 10% dos votos. É da lei da vida que as instituições não se consigam reformar a si mesmas; em vez disso, surgem novas instituições que vêm competir com as antigas. Ainda é cedo para que o dólar e o euro deixem de ser as moedas de referência; afinal, é em dólares que são feitas as contas do Banco dos BRICS. Mas há 20 anos não era visível um mundo onde estes 5 países colaborassem desta forma. É de esperar que o Banco e o conjunto dos países BRICS ganhem progressivamente mais influência, desenhando um multi-polar e não um mundo de uma potência só.