O Estado Islâmico é, actualmente, a expressão mais "refinada" do terrorismo, e é um inimigo que diz respeito a cada um de nós. Na verdade, não se trata de restabelecer o Califado, como o líder Al-Bagdadi alegou há tempos. Trata-se de uma ideologia de ódio que está a congregar meios financeiros e humanos de uma forma eficaz. E o desafio maior poderá surgir até quando o "Estado" entrar em colapso e os combatentes tornarem a espalhar-se pelo mundo.

O futuro do Estado Islâmico, enquanto tal, não é auspicioso. É preciso memória para encontrar alguma organização que tenha conseguido reunir contra si inimigos tão diferentes uns dos outros, e de uma forma muito rápida: os Estados Unidos e o Ocidente, vários países árabes, o Irão, a Síria, estão unidos contra o fenómeno.

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E nem Vladimir Putin, que foi pessoalmente ameaçado, estará triste com os ataques aéreos a Raqqa, capital do Estado. Será difícil manter a estrutura político-militar contra tantos e tais adversários.

Mas é no campo ideológico que se coloca o maior desafio. Há várias maneiras de cada um de nós se sentir pessoalmente atingido. Se eu for russo, não estarei satisfeito com as ameaças ao meu presidente. Mas se eu for católico, não posso também estar satisfeito com as ameaças ao Papa e a bravata de ver o Estado Islâmico no Vaticano. Se eu for ateu, não posso estar contente com uma organização que instiga os seus apoiantes a matarem-me. E se eu for agnóstico, sei que o combatente não me vai perguntar, amavelmente, se eu tenho a certeza absoluta que Deus não existe ou se apenas sublinho a incapacidade do Homem para determinar em definitivo a Sua existência - antes de me enterrar a faca no pescoço.

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E se eu for cidadão do mundo, não posso aceitar o que acontece às minorias cristãs e yazidis no Iraque, ou aos prisioneiros de guerra sírios. Finalmente, se eu for muçulmano, não posso aceitar que tantos crimes sejam cometidos em nome do meu Deus e da minha tradição - e assim o fizeram 120 clérigos e estudiosos do Islão, numa carta aberta a Abu Bakr al-Bagdadi e data da passada quinta-feira, onde condenam de forma veemente as acções e a ideologia do Estado Islâmico.

Esta é uma batalha de ideias que diz respeito a cada um de nós. São poucos os portugueses que embarcam para a Síria, mas cada português que se deixa persuadir por isto é uma derrota para todos. E cada combatente que venha para Portugal é um inimigo de todos, também.

Não sabemos o que vai acontecer aos combatentes do Estado Islâmico quando ele acabar. Talvez acordem para a realidade, como muitos alemães depois da II Guerra Mundial. Talvez venham para cá prosseguir a luta como células terroristas - o Estado Islâmico já prometeu atentados nos Estados Unidos e em França, como fazia a Alcaida e ao invés da sua tradição recente.

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Mas sabemos que estas ideias vão continuar por cá, e que as ideias são o mais custa a desaparecer. Sabemos também que aquilo em que acreditamos, independentemente da crise de valores, das transformações sociais que atravessamos, não pode dar-se por derrotado contra a barbárie. E sabemos também que não pode haver meio termo. É um mundo negro e infeliz aquele com que sonha o Estado Islâmico.

Aos que vão combater o Estado Islâmico - sejam pilotos de drones sentados numa base no Midwest, pilotos de caças americanos ou franceses, soldados da oposição síria ou do governo de Bashar Al-Assad, espiões israelitas ou iranianos, contra-espiões franceses em Paris, soldados curdos peshmerga ou iraquianos, opinion makers e pais de família que mostram a diferença entre o bem e o mal - a todos desejamos boa sorte.