A palavra "ucrânia", na língua local, tem o mesmo significado que "estremadura" no português antigo: "terra de fronteira". Só que enquanto em Portugal há séculos que a terra deixou de o ser, no Leste continua a ser fronteira - entre a Rússia e o Ocidente. Uma crise como a actual estava prevista nas palavras de Vladimir Putin, o novo czar, desde que chegou ao poder em 2000, substituindo Boris Yeltsin. Putin nunca escondeu que, internamente, a Rússia precisa de um estado forte e, externamente, que o "estrangeiro próximo" é uma área de intervenção privilegiada.

A Rússia não é um país que possa ser comparado, em termos culturais, à Europa Ocidental.

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Este país continental não atravessou o Renascentismo ou o Iluminismo e nunca teve qualquer experiência democrática. Tal como a China e a Índia, que também fazem parte dos BRICS, a Rússia é um gigante mundial com uma história específica e única. Nela se inclui uma vaga tentativa de imitação das instituições europeias, em especial no século XVIII, com Pedro, o Grande, mas apenas isso. A história da Rússia dos últimos 500 anos é uma história de conquistas progressivas que atingiram o auge após 1945, com o Pacto de Varsóvia. Logo, é compreensível que os vizinhos tenham medo e queiram vers-se protegidos.

O facto de existirem populações russas sob soberania de países vizinhos pode ser considerada uma questão de auto-determinação. Se a Rússia não fosse o que é, isso nem seria um problema. Poderia haver espaço para o respeito da língua e cultura russas nesses países e, além disso, nenhum dos novos ou antigos vizinhos da Rússia manifestou intenções de querer território da grande potência.

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Acima de tudo, estes países querem garantias contra futura agressão.

A Ucrânia enfrenta agora o desafio. Ainda que se pudesse colocar a questão de auto-determinação da Crimeia, a forma como Moscovo lidou prova que o que interessa é a prova da força, interna e externa, e não um processo sob supervisão internacional, como aconteceu em Timor. Isso não encaixa no perfil histórico, psicológico e político deste país. E com o primeiro sucesso, vem a escalada.

Putin tem avançado cautelosamente, degrau a degrau, ao contrário do que fizeram as potências europeias em 1914. Neste momento, há uma guerra aberta - simplesmente não foi declarada e é de baixa intensidade. No Ocidente, onde muitos analistas se perguntam que mal fizemos a Putin e onde é que deveríamos ter pedido desculpa, estamos a colocar-nos ao lado da Ucrânia resistente. Uma palavra da China poderia ser decisiva, mas a potência do século XXI mantém-se, como sempre, silenciosa. Putin escolheu bem o timing, também, tendo em conta que o Ocidente quer reagir ao Estado Islâmico e vê-se de repente com duas crises. Mas com uma Rússia em crise económica e o rublo em queda, até onde estarão os russos dispostos a ir? Também Khrushchev ameaçava Kennedy com mísseis. Em todo o caso, estamos perante a crise mais grave na Europa, desde os anos 80.