O governo da Hungria anunciou o cancelamento da intenção de criar um imposto sobre o tráfego de internet, que havia anunciado recentemente. A notícia vem na sequência de manifestações em grande escala contra esta medida, seguramente inesperadas por parte do governo liderado pelo primeiro-ministro Viktor Orban. O governo havia anunciado a intenção de criar um imposto sobre o tráfego, cobrando 150 forints por 1 Gb - cerca de 0,50€, num país onde o salário mínimo é de cerca de 330 euros, na moeda europeia.

Em resultado, cerca de 100.000 pessoas concentraram-se em Budapeste num gigantesco e totalmente inesperado protesto contra a medida.

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Nas ruas, alguns manifestantes empunhavam bandeiras onde a efígie do primeiro-ministro de Orban aparecia junto à de Vladimir Putin, o líder russo que as sociedades da europa de Leste identificam com o poder antidemocrático e opressor: heranças de anos de imperialismo russo e aviso contra a recente agressão à Ucrânia. Mas, aos microfones da rádio, Orban tentou valer-se dos seus galões democráticos, afirmando "não ser comunista" e como "só os comunistas é que governam contra o povo", o imposto não poderia ser implementado. Orban refere-se, naturalmente, ao peso histórico do Pacto de Varsóvia - e em especial à revolução de 1956, onde durante alguns dias um governo não comunista tomou o poder em Budapeste até ser silenciado pelos tanques russos sem qualquer oposição do Ocidente. Orban, líder de um governo por muitos considerado (dentro e fora da Hungria) com tendências autoritárias, afirmou contudo que no início do próximo ano o debate em torno da regulação e da taxação da internet irá continuar, e não exclui a hipótese de um referendo.

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Em consonância, um porta-voz do Governo usou um argumento clássico, referindo ter-se tratado de um problema de comunicação, e de desinformação pelos opositores ao governo: o imposto não seria mais que a extensão de uma taxa de telecomunicações já existente. Contudo, até mesmo a imprensa que habitualmente apoia o governo - nomeadamente o jornal conservador Heti Valasz - mostrou-se desde o início contra a medida.

O resultado é uma vitória sonora para a democracia e a liberdade, num espaço que cada vez mais define as relações sociais, económicas e políticas no século XXI: a internet. É também uma grande notícia saber que uma democracia europeia conseguiu mobilizar-se rapidamente em torno de um valor fundamental para uma sociedade livre e esclarecida.