Durante a apresentação da Memoria y Cuenta 2014 (o equivalente ao Relatório e Contas), o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, proferiu a frase "Deus proverá", enquanto anunciava medidas económicas para o país. A expressão tornou-se viral nas redes sociais e levou o humorista venezuelano Laureano Márquez a escrever um curioso editorial no diário Tal Cual. A "Carta de Deus a Maduro" tornou-se, também ela, uma tendência mundial no Twitter. A missiva faz uma reflexão sobre as potencialidades do país e põe em evidência a falta de capacidade para aproveitar os muitos recursos naturais de que dispõe.

"Querido e predilecto filho pródigo: Sabes que por ser Deus me encontro em todo o lado.

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Acompanhei o teu discurso de relatório e contas, cumprindo o meu dever inevitável de ser omnisciente", começa por escrever Márquez. "Em determinado ponto - face às adversidades que se avizinham para o país, por causa da crise dos preços do petróleo - ouvi-te dizer, fazendo uso da tua livre vontade: 'Deus proverá'. Minha pequena e bela criatura: eu já forneci. Será que não deste conta?", questiona.

E responde. "Eu explico-te: no dia em que criei a Venezuela, coloquei-a na zona tropical, para que os rigores do Inverno e as neves não a acossassem e o sol brilhasse todo o ano. No entanto, dei-lhe os Andes, com neves perpétuas, para que as crianças tivessem onde passar frio e usar luvas e gorros com orelheiras. As terras com que a dotei são quase todas férteis. As planícies são ideais para criação de gado.

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Nas selvas costeiras, tem o melhor cacau do planeta e pode ser cultivado excelente café. Dei-lhe terras produtivas no sul do Lago, nos Andes, em toda a zona central. Muitos rios lhe fiz, para que nunca falte a água. Mais: coloquei dois de grande caudal, um ao lado do outro, para que utilizassem um para produzir electricidade e o outro - navegável - para que transportem os produtos da exploração mineral, que, aliás, coloquei mesmo ao lado do rio, para que não tenham muito esforço para retirá-los. Dei-lhe praias maravilhosas para levarem os turistas: Margarita, Los Roque, Morrocoy e La Gran Sabana, com as Cataratas Ángel, para que se sentissem maravilhados e orgulhosos do que são. No subsolo, pus as maiores reservas petrolíferas do planeta. Também ouro, aluminio, bauxita, diamantes e tantas coisas mais".

"Filhinho lindo - prossegue - mandei-vos mensagens, mandei-vos pessoas, enviei-vos inspiração (…) com uma mensagem: transformem o petróleo noutras formas de riqueza, semeiem-no. Tesouro lindo do meu coração: como se o anterior fosse pouco, acabo de enviar 15 anos da maior bonança petrolífera alguma vez vista na história da humanidade.

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Multiplica, bebé: dois milhões e meio de barris diários X 100 X 30 X 12 X 15. O resultado é o dinheiro que vos enviei, para que convertessem a Venezuela num Paraíso Terreno de abundância e progresso".

"Dei-vos tudo, Nicolás da minha alma, terno filhinho do meu coração: como te atreves a dizer-me 'Deus proverá'?", volta a questionar. "Olha, se tinha esperança nalgum projecto, era na Venezuela. Vai custar-vos muito que eu entenda como converteram uma das minhas melhores obras nesta ruína", lamenta. E termina com um conselho: "senta numa mesa o Pedro Palma, Asdrúbal Oliveros, José Guerra, Orlando Ochoa e o Luis Vicente León [economistas] e diz-lhes que te dêem uma lista de 10 acções urgentes para salvar o país do desastre que se segue e pára-os. Digo-te Eu, que já vejo o que aí vem, não por ser Deus, mas por puro senso comum. Apesar de tudo, amo-te".