O Syriza já fechou acordo para formar um governo de coligação e conseguir uma maioria no Parlamnto da Grécia. Tal como se previa, o partido Gregos Independentes (ANEL), cujo líder Panos Kammenos já havia divulgado disponibilidade de negociar com Alexis Tsipras, acertou os termos com o vencedor das eleições de ontem. Cerca de 90 minutos foram suficientes para se chegar a um acordo. Aos 149 deputados do partido de esquerda, juntam-se os 13 deste partido de direita para formar assim a maioria absoluta de 162 deputados, que vai apoiar o governo que pretende reestruturar a dívida e acabar com a austeridade. "É o regresso da soberania", foi a principal declaração de Kammenos.


O acordo surpreende em termos ideológicos, uma vez que os Gregos Independentes são um partido de direita nacionalista que, em condições ditas "normais", não estabeleceria uma aliança com um partido de esquerda como o Syriza. Contudo, a rejeição do programa da Troika e da austeridade é um ponto comum a ambos os partidos, sendo naturalmente a principal motivação e mensagem de ambos nestas eleições. De resto, esta aliança de extremos é apenas uma das novidadews estatísticas destas eleições gregas. Alexis Tsipras é o primeiro-ministro mais novo de sempre da Grécia, com 40 anos. E esta é a primeira vez, deste 1974, que um outro partido que não o Pasok (socialista) ou a Nova Democracia (equivalente ao social-democrata português) formam governo no país-berço da civilização ocidental.


Já os mercados financeiros não estão a reagir tão negativamente como seria de esperar. As bolsas europeias acordaram em queda, com a bolsa de Atenas a perder mais de 5%, perante um cenário de negociações difíceis com a Troika e a Alemanha. As perdas maiores registaram-se no sector financeiro exposto à dívida grega, com os mercados a alinharem com o tom do e-mail que Fernando Ullrich, CEO do BPI, enviou aos clientes relativamente à possibilidade de vitória do Syriza. Mas o euro, contra todas as expectativas iniciais depois de começar a perder valor quando os asiáticos (que acordaram primeiro), estava a valorizar ligeiramente, subindo de 1,12 dólares para 1,1235. De resto, a queda nas bolsas europeias estava, ao início da manhã, nos 0,5%, longe do que se poderia imaginar se o Syriza estivesse a formar governo em 2010.


Hoje à tarde reúnem-se os ministros das Finanças da União Europeia. Hoje, um responsável do BCE já veio afirmar que o Banco não pode, "por razões legais", aceitar uma redução da dívida da Grécia. Merkel e Schäuble continuam sem fazer qualquer comentário; a intervenção pública da chanceler alemã, que se conheceu ontem, foi no sentido de telefonar a Vladimir Putin para exercer pressão sobre os rebeldes pró-russos da Ucrânia.