Uma das características mais curiosas do regime de Pyongyang é a sua aparente imprevisibilidade. Não obstante as constantes ameaças aos vizinhos, que se tornaram mais comuns desde que Kim Jong-Un subiu ao poder, o investimento em armamento independentemente do estado do país, e a recente polémica com os Estados Unidos por causa do filme The Interview, o governo norte-coreano veio agora declarar que estaria disposto a estabelecer conversações ao mais alto nível com Seul, com vista a uma possível reaproximação entre as duas Coreias. O gesto foi encarado com desconfiança pelo governo sul-coreano e os seus parceiros locais e internacionais, certamente invocando as limitadas tentativas de reaproximação do passado recente.

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Ainda assim, Seul declarou que o gesto seria significante, mas que teria de ser feito de boa vontade e sem condições pré-estabelecidas.

A divisão entre as duas Coreias deu-se em 1945 e tornou-se definitiva quando apoiantes comunistas do avô de Kim Jong-Un, Kim Il-Sung, lançaram um ataque ao sul, em 1950, levando à Guerra da Coreia. Apesar do apoio chinês, as forças das Nações Unidas conseguiram empurrar os norte-coreanos de volta às fronteiras pré-guerra, declarando-a como terminada em 1953, apesar de nunca se ter assinado um acordo de paz definitivo. Oficialmente, as duas Coreias ainda estão em guerra, e tiroteios e até mortes ainda sucedem com alguma frequência na fronteira. Chamada de Zona Desmilitarizada, esta corresponde a um trecho de terra que divide a Península Coreana em dois; é uma zona de ninguém e, apesar do nome, é ainda a fronteira mais pesadamente defendida do mundo.

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Desde então que têm existido encontros pontuais de alto nível entre ambos os países, sendo o último realizado em Fevereiro do ano que passou, e que possibilitou contactos entre famílias separadas pela guerra. No entanto, quaisquer conversações do género têm estado interrompidas nos últimos sete meses, e a desconfiança por detrás dos motivos de Pyongyang é real.

Por exemplo, neste aparentemente reconciliador discurso de Ano Novo, o líder norte-coreano também terá afirmado que os exercícios militares anuais envolvendo a Coreia do Sul e os Estados Unidos da América, e que estão a poucas semanas de se realizar, apenas servem para aumentar a tensão na região e deveriam acabar. Mais ainda, considera hostis as ideias por parte de Seul de reunificar o país através da absorção do Norte e da dissolução do Partido Comunista.

Segundo as autoridades sul-coreanas, tais pedidos enfraquecerão quaisquer conversações ainda antes de estas se iniciarem. É questionável, neste momento, se tais conversações se poderão dar no futuro próximo, tendo em conta as tensões na região.

Também nos últimos dias, e não obstante o discurso de Kim Jong-Un, as autoridades norte-coreanas proibiram a exibição de filmes estrangeiros, ainda no rescaldo da polémica com o The Interview; a proibição aplica-se inclusive a longas-metragens de origem chinesa ou russa.