O discurso de vitória Alexis Tsipras foi curto mas incisivo. É "um cenário de esperança" que se abre para a Grécia, e um "momento histórico" para a Grécia e a Europa. Pela primeira vez, um partido anti-austeridade vai ser chamado a formar governo. Tsipras sabe que as próximas horas serão desgastantes e decisivas. O Syriza não conseguiu a maioria absoluta e terá de negociar com outro partido para poder formar governo, o que, de acordo com a legislação grega, deve acontecer nos próximos três dias. Caso contrário será a Nova Democracia - do ainda primeiro-ministro Antonis Samaras - a, por sua vez, negociar com outros parceiros uma maioria. 


Todavia, é de esperar que o Syriza venha a ter sucesso. Os partidos minoritários To Potami e Gregos Independentes foram apontados como possíveis parceiros, e o líder deste último partido já declarou que está disponível para negociar com Tsipras.


Os próximos três dias serão assim decisivos. Se o Syriza formar governo, portugueses e espanhóis poderão assistir nos próximos meses aos resultados práticos de um partido de esquerda a enfrentar a austeridade europeia - temos eleições em Portugal no Outono. Os próximos três dias serão também importantes para verificar se os mercados financeiros reagem da mesma forma irracional como o fizeram entre 2010 e 2011.




Por toda a Europa as reacções foram diversas. O Podemos espanhol vibrou com a mudança histórica (Pablo Iglesias esteve em Atenas na campanha), e o presidente francês Hollande cumprimentou o vencedor apelando à negociação responsável. Já da chanceler Angela Merkel veio apenas um silêncio ensurdecedor. 


Em Portugal, as reacções foram igualmente as esperadas. Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, saudou a vitória "da democracia contra a chantagem", enquanto o PCP celebrou também a "derrota dos partidos que criaram a crise." Em programa de comentário na RTP Informação, o ex-deputado José Manuel Pureza, do Bloco, lembrava que "é uma oportunidade para a Europa mostrar se é realmente democrática e se sabe lidar com um pensamento diferente". No PS, António Costa apontou que "é possível encontrar alternativas à austeridade." Já os partidos de direita mostraram-se mais contidos, com o CDS a mostrar "respeito" pelo voto e o PSD esperando que se trate de um passo "no sentido da estabilidade financeira da Grécia". O Presidente da República, dr. Cavaco Silva, não fez qualquer comentário.


O programa eleitoral do Syriza inclui, além da reestruturação da dívida pública grega, uma moratória sobre a dívida que permanecer, um programa de apoio social imediato, a exigência de compra de dívida por parte do BCE (tal como Draghi anunciou na passada quinta-feira, mas deixando a Grécia de fora), entre outras medidas. A expectativa inclui o discurso de responsabilidade adoptado por Tsipras nas últimas semanas, deixando cair o discurso de ruptura com o euro e falando na necessidade de aliviar uma carga austeritária insustentável. 


Do lado da UE, hoje reúne-se o Eurogrupo, com os presidentes do próprio, da Comissão Europeia, do Conselho Europeu e os ministros das Finanças a preparar de imediato a resposta ao voto grego. De acordo com o Público, há margem para negociar, essencialmente sobre os prazos e os montantes da dívida, "mas mais sobre os prazos". Contudo, não se reconhece ainda qualquer posição efectiva da Alemanha neste sentido - e também o sr. Schäuble não fez nenhum comentário à vitória de Tsipras.