Uma semana após o massacre ocorrido na redacção do jornal Charlie Hebdo, localizada no número 10 da rua Nicolas-Appert, em Paris, os jornalistas e cartoonistas daquela publicação francesa uniram-se para dar azo a uma edição da revista, que ficará para sempre na história. Contrariamente ao que foi aclamado, a plenos pulmões, por um dos terroristas após consumado o atentado – “ Matámos o Charlie Hebdo!”, o semanário satírico não morreu. Pelo contrário. Hoje, quarta-feira, dia 14 de Janeiro de 2015, três milhões de exemplares estão disponíveis em 25 países. Normalmente, a tiragem do jornal ronda os 60 mil exemplares.

Com uma previsão inicial de um milhão de exemplares, depressa se percebeu, devido à crescente onda de solidariedade que se instalou um pouco por todo o mundo, que a edição posterior ao ataque terrorista teria de assumir contornos históricos.

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“Vamos continuar, haverá publicação na próxima semana”, referiu um dia após o atentado o cronista Patrick Pelloux, reforçando assim o desejo de Charb [director da revista que perdeu a vida no ataque], que defendeu sempre que “o jornal deve sair custe o que custar”. A restante equipa que compõem o Charlie Hebdo (15 pessoas) desenvolve agora o seu trabalho nas instalações do jornal Libération.

Apesar do ataque, o jornal satírico promete não se desviar da sua linha editorial, e a capa da edição desta quarta-feira comprova-o. Assinada pelo cartoonista Luz, nome artístico de Renald Luzier, a capa é constituída pelo Profeta Maomé que, a chorar, segura um cartaz que diz “Je suis Charlie”. Acima da caricatura pode ler-se “Tudo está perdoado”. Recorde-se que a reprodução da caricatura de Maomé é proibida na religião islâmica.

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Esta edição especial está traduzida em 16 idiomas e conta com cerca de 300 mil exemplares distribuídos fora do território francês. Não é conhecida a tiragem, nem os locais de venda em Portugal mas, segundo avança a International News Portugal - importadora e distribuidora de publicações em solo português – à Agência Lusa, a procura “por esta edição é superior ao habitual”, pelo que foram pedidos mais exemplares “para distribuição em Portugal”.

Luz explica capa em conferência de imprensa

O autor da capa desta quarta-feira do Charlie Hebdo explicou ontem, numa conferência de imprensa bastante emocionada, a razão pela qual elaborou aquela capa. Segundo Luz, a caricatura de Maomé foi realizada uma vez que o cartoonista defende que o Profeta é a personagem “que destruiu a nossa redacção”. Ainda que Luz reconheça que a famigerada capa não vá de encontro àquilo que as pessoas queriam que fosse desenhado, visto que “não se veem terroristas”, mas sim “um homem que chora”, o cartoonista pediu desculpa por desenhá-lo novamente, mas sublinhou que o Maomé desenhado é o Maomé que, “para além de tudo, chora”.