A escassez de produtos básicos não é uma novidade para os venezuelanos. Há já algum tempo que eles se habituaram a ter de percorrer várias lojas para conseguirem fazer o seu avio semanal. E, por vezes, sem sucesso. A situação é particularmente difícil na capital, Caracas. Num país profundamente dividido, todos apontam o dedo uns aos outros: a oposição diz que a culpa é do governo de Nicolas Maduro e o governo fala numa conspiração dos ricos contra os pobres.

A população decidiu então mostrar ao mundo aquilo por que está a passar, utilizando as redes sociais e, de repente, a hashtag #AnaquelesVaciosEnVenezuela (prateleiras vazias na Venezuela) tornou-se num dos tópicos mais comentados no Twitter, com mais 200 mil referências.

Publicidade
Publicidade

Tudo na véspera de ano novo, quando o fotógrafo Alejandro Cegarra quase foi preso por fotografar uma longa fila à porta de um dos supermercados da cadeia Excelsior Gama. Ele decidiu relatar no Twitter o que se estava a passar e captou a atenção de centenas de pessoas.

Cegarra foi primeiro abordado pela Guarda Nacional e, depois, pelo gerente do estabelecimento. Ambos lhe disseram para parar de tirar fotos. Não havendo motivo legal que o impedisse, o fotógrafo continuou a disparar e o gerente pediu aos oficiais que o detivessem. Foi então que uma outra pessoa, "alegando ser jornalista do jornal El Nacional", interveio. "Ele disse ao agente que se me detivesse teria de levá-lo também", contou Alejandro à BBC Trending. Por esta altura, as suas mensagens já tinham sido replicadas por centenas de pessoas no Twitter.

Publicidade

O fotógrafo acabou por não ser detido e a Excelsior Gama pediu desculpa pelo incidente, mas era tarde demais. Já tinha começado um movimento que levou milhares de pessoas a publicar fotos de prateleiras vazias e corredores desertos como forma de protesto. A vasta maioria dos que aderiram à campanha e enviaram as suas imagens são opositores do governo.

Um dos primeiros a juntar-se à causa foi o piloto comercial Oliver Laufer, que tem mais de 14 mil seguidores na rede social do passarinho. Laufer tirou fotos numa outra loja da mesma cadeia e também foi abordado de forma pouco simpática pelos responsáveis do supermercado. O resultado foi que ele pretendia: a sua mensagem foi repetida por milhares de utilizadores. "Os nossos funcionários não sabiam o que é que ele estava a fotografar e, assim que foi questionado, ficou violento", disse à BBC Natacka Ruiz, directora de marketing da Excelsior Gama.

Nos dias seguintes a estes dois casos, os utilizadores das redes sociais na Venezuela publicaram centenas de fotos de prateleiras vazias e corredores desertos em várias cadeias de supermercados em todo o país.

Publicidade

Já esta semana, a especulação em torno da escassez de produtos no país aumentou quando a McDonald's anunciou que iria substituir as batatas fritas nos seus menus por beterraba ou outros produtos locais como a yuca.

A falta de produtos básicos tem-se agravado na Venezuela com a forte queda no preço do petróleo nos últimos meses. Segundo estimativas, 96 por cento das receitas de exportação são provenientes do produto. Petróleo mais barato significa menos dinheiro nos cofres do país para garantir acesso a moeda estrangeira e importações de produtos.