Diz-se que todas as histórias têm pelo menos duas versões - senão mesmo mais. No caso da famosa marcha que reuniu vários líderes mundiais no passado dia 11 de Janeiro (domingo), em Paris - para uma manifestação pacífica contra o terrorismo simbolizado pelo mais recente ataque-escândalo ao jornal satírico francês "Charlie Hebdo" (que matou 12 pessoas) - as versões parecem ser pelo menos duas. Uma pela igualdade e outra, que no Ocidente, é considerada sexista. O jornal judeu ultra ortodoxo "HaMvaser" publicou uma fotografia do evento, apagando por completo qualquer vestígio das líderes femininas que marcaram presença.

Fazendo assim valer, através de uma imagem, os seus valores religiosos, culturais, sociais e tantos mais orientais, o jornal apagou a chanceler alemã Angela Merkel e a italiana Federica Mogherini, Alta Representante da União Europeia para a Política Externa e Segurança, porque os judeus Haredi proíbem a publicação de fotografias de mulheres.

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O termo Haredi vem do hebraico e quer dizer temente ou temeroso, sendo usado para referir os praticantes do judaísmo ultra ortodoxo. Entre as várias regras, a já referida proibição, existente porque esta vertente pensa que o corpo feminino não é recatado e deve ser coberto, levou a que o "HaMvaser" utilizasse a mesma fotografia da marcha que a maior parte das publicações mundiais usaram (a da linha da frente da marcha, com François Hollande ao lado de Angela Merkel), mas editando/apagando o "pequeno pormenor" intitulado mulheres.

Várias críticas foram posteriormente feitas ao cortejo que saiu da Praça da República, e que já é considerada a maior marcha da história de Paris (com cerca de 1.5 milhões de pessoas). A aparição de muitas personalidades políticas foi fortemente satirizada - por serem personalidades que no passado se manifestaram contra a liberdade de expressão.

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O primeiro-ministro turco, Ahmed Davutoglu; o chanceler russo, Sergei Lavrov; o presidente do Gabão, Ali Bongo; o rei e a rainha da Jordânia; ou Naftali Bennett, ministro israelense da Economia, são algumas das individualidades controversas.

Fica a questão sobre o que será mais polémico: uma alegada hipocrisia política por defesa de algo que já se atacou no passado ou o completo "apagão" fotográfico de mulheres (e da história, na verdade)?