Na sequência dos recentes ataques terroristas em Paris, o primeiro-ministro britânico David Cameron pediu uma legislação mais forte contra as formas seguras de comunicação. A criptografia não foi especificamente mencionada, mas o líder do partido conservador reafirmou a sua postura com uma pergunta: "Queremos permitir um meio de comunicação entre as pessoas que, mesmo numa situação extrema e com um mandato assinado pelo ministro do Interior, não podemos ler?". Cameron prosseguiu com o argumento de que os terroristas estão a utilizar estes métodos de comunicação e que o governo do Reino Unido, com a nova legislação, deveria ser capaz de os monitorizar.

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As observações sugerem que Cameron quer proibir criptografia end-to-end no Reino Unido. Se assim for, o governo britânico poderia (dependendo do detalhe da legislação) efectivamente proibir aplicativos de mensagens como o WhatsApp, iMessage e Snapchat. Ou seja, a menos que essas empresas mudem os seus serviços, ou forneçam algum tipo de "porta dos fundos" para que torne possível que as autoridades leiam as conversas das pessoas. Descartar completamente a criptografia tornaria os dados de comunicações menos seguros e levaria as empresas a serem mais susceptíveis a ataques cibernéticos.

Quaisquer restrições do governo sobre criptografia poderiam, em teoria, afetar outros serviços também, tal como a navegação segura na web e jogos. Actualmente, o Reino Unido tem leis que podem obrigar os cidadãos a desencriptar os seus dados pessoais, ou entregar as chaves de descodificação, caso o governo solicite o acesso com uma ordem judicial.

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Qualquer recusa acarreta uma pena de dois anos, embora se o pedido se referir à segurança nacional, a pena possa ser aumentada para cinco anos.

O desejo de criar uma nova legislação pode também implicar o desejo por parte do primeiro-ministro britânico de ressuscitar o projecto de lei de comunicações de dados, comummente referido como a Carta do Snooper. O projecto lei teria exigido a empresas para reterem dados básicos sobre as comunicações dos seus utilizadores, tais como os contactos telefónicos recebidos e enviados, durante pelo menos 12 meses. Não incluía o "conteúdo" das próprias conversas, mas os liberais democratas têm sido claro sobre a sua oposição permanente ao projeto-lei.

O vice-primeiro-ministro e líder liberal-democrata, Nick Clegg, reiterou a sua oposição à Carta do Snooper, apresentando-se contra as novas propostas de Cameron para reprimir as comunicações seguras. Para que esta situação vá efectivamente para a frente, é necessário que o Partido Conservador vença as eleições gerais, agendadas para Maio de 2015.

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Mesmo assim, as propostas de Cameron irão provavelmente enfrentar o mesmo nível de oposição que a Carta do Snooper original. Proibir a criptografia end-to-end irá, provavelmente, irritar uma porção significativa do eleitorado, mas o primeiro-ministro britânico espera que os recentes ataques terroristas possam adicionar peso ao argumento de que são necessários poderes de vigilância mais fortes.