O petróleo vai perder metade do peso em percentagem na receita fiscal de Angola. Foi o próprio presidente José Eduardo dos Santos que o afirmou, na abertura do Conselho da República, convocado para reagir à crise que o país vai enfrentar. O petróleo representava, em 2014, cerca de 70% das receitas de impostos, mas será apenas cerca de 36% em 2015. "O governo não vai poder financiar a economia e fazer despesa pública", asseverou Eduardo dos Santos. 


O Orçamento de Estado para 2015 corta um terço da despesa em relação ao anterior. O presidente advertiu que as "bases do progresso económico" que o país tem vivido estão comprometidas para o curto e médio prazo, e que será necessário encontrar formas de manter a estabilidade. O Conselho da República, além de incluir altos dignitários do Estado angolano, inclui também os responsáveis dos partidos da oposição ao MPLA, com representação no parlamento. Neles se inclui Isaías Samakuva, actual líder da UNITA.


A queda dos preços internacionais do petróleo, que se vem verificando há meses, afecta com maior gravidade os países cuja economia se baseia apenas (ou quase só) neste mineral. Têm sido notórias as dificuldades de outros países em situação semelhante. Na Venezuela, o preço dos preservativos subiu até quase equivaler o salário mínimo. Na Rússia, e depois da queda súbita do rublo em Dezembro, um responsável do governo já veio dizer que será necessário comer menos. E apesar de esforços diplomáticos como o de Nicolás Maduro da Venezuela, a Arábia Saudita mantém-se firme na sua decisão de manter os níveis de produção. Se o alvo principal é o Irão-Rússia-Estado Islâmico, ou se serão os produtores norte-americanos de petróleo de xisto, - a nova concorrência ao petróleo saudita - é matéria de debate. 


Para os portugueses que optaram por tentar a sorte em Angola, o cenário não é risonho. Apesar da aparente união nacional de políticos e partidos angolanos em torno do problema, a crise financeira e económica é real e vai ter consequências. As exportações portuguesas para Angola vão também sofrer um golpe considerável. Já para o português comum, os combustíveis mais baratos continuarão a ser uma vantagem.