A Arábia Saudita "não tem problemas com a Irmandade Muçulmana", referiu o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Estas declarações são vistas como indicador de mudança no regime saudita com o novo rei. Saud bin Faisal fez os comentários durante uma entrevista de duas horas à jornalista árabe Samar al-Mogren, que foi pessoalmente convidada a entrevistar Faisal. "Nós não temos um problema com a Irmandade Muçulmana; o nosso problema é com um pequeno grupo filiado a esta organização", disse o mais antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do mundo, que está nos EUA a recuperar de uma cirurgia à coluna vertebral realizada no mês passado. Na entrevista, publicada como Duas Horas com Saud bin Faisal, Mogren elogiou a "tolerância" do ministro para um grupo causador "do contínuo sofrimento que estamos a viver".



Os comentários de Faisal caíram como uma surpresa para muitos, num país onde a Irmandade Muçulmana foi rotulada como "organização terrorista" em Março deste ano ao lado de outros grupos como o Estado Islâmico. Apesar da denominação "terrorista", uma pesquisa realizada no final do ano passado pelo Instituto Washington para a Política do Próximo Oriente descobriu que 31 por cento dos inquiridos sauditas apoiam a Irmandade Muçulmana. Um comentador no popular Saudi forum Liberals escreveu que os comentários do ministro foram um "resumo geral da era de Salman e da sua visão política". Muitos esperam que Salman adopte um tom mais conciliador para com a Irmandade do que o falecido rei Abdullah, que apoiou fortemente em 2013 a destituição do governo Irmandade Muçulmana instalado no Egipto.


Os comentários de Faisal vieram na sequência de uma breve visita à Arábia do representante da Coroa Saudita em Doha na semana passada, a primeira reunião bi-lateral entre os vizinhos em meses. Mohammed bin Nayef encontrou o emir do Qatar, Tamim Al Thani, num hotel de luxo para discutir o reforço das "relações fraternas profundamente enraizadas entre os dois países", segundo a agência de notícias oficial do Qatar.


O Qatar e a Arábia Saudita desentenderam-se publicamente precisamente por causa do apoio de Doha à Irmandade Muçulmana no ano passado, gerando um vácuo de comunicação de oito meses. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein retiraram, em Março, os seus embaixadores em Doha, no Qatar, alegando que este havia minado a sua "segurança interna", apoiando a organização islâmica.


Na sequência da ascenção de Salman ao trono saudita, os líderes da Irmandade Muçulmana exilados que vivem em Qatar manifestaram esperança de que a atmosfera no Golfo vá passar a ser mais favorável para o grupo. "Há um crescente sentimento de esperança agora; as coisas estão mudando à nossa volta, com novos líderes a chegar ao poder", comentou à Reuters na semana passada um membro da Fraternidade que vive no Qatar.