Há 12.800 milhões de anos, quando o universo era ainda uma criança que só tinha vivido seis por cento da sua vida, existiu um descomunal farol 420 mil milhões de vezes mais luminoso que o sol. Naquela época, o universo estava a sair da "idade das trevas", um período que durou centenas de milhões de anos e no qual tudo era escuridão. Depois apareceram as primeiras estrelas e galáxias e a luz começou a invadir tudo. Pouco antes do fim desta etapa - conhecida como reionização - acendeu-se esse farol, cuja origem era um descomunal buraco negro que acaba de ser descoberto e analisado por uma equipa internacional de astrónomos. Os investigadores acreditam que este "monstro" teria 12 mil milhões de vezes mais massa que o Sol, o que o converte no maior e mais luminoso objecto deste tipo no universo primordial.

O objecto descoberto é um quasar, uma massa de matéria acelerada por um buraco negro super-massivo que existe no seu centro.

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Parte dessa matéria é engolida e outra escapa num fluxo de partículas que se movem quase à velocidade da luz. Este processo produz uma potente luz que converte os quasares nos objectos mais luminosos do universo. Até agora, só se conheciam 40 com mais de 12.700 milhões de anos. "Este quasar é único", disse Xue-Bing Wu, astrónomo da Universidade de Pequim, um dos descobridores deste objecto. "A sua luz vai ajudar-nos a explorar melhor o universo primordial", acrescentou numa nota de imprensa divulgada pelo Grande Telescópio Binocular do Arizona, um dos instrumentos usados para a detecção.

A descoberta é importante para entender a origem das galáxias, incluindo aquelas em que se verificam as condições necessárias para a existência de vida, como a Via Láctea. Crê-se que todas têm um grande buraco negro no seu centro e também que, nas suas origens, poderão ter albergado um quasar activo como o que foi descoberto no actual estudo, publicado na revista Nature.

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A dimensão e a potência deste objecto estão nos limites do possível. Normalmente, a radiação que emitem os buracos negros ao engolir a matéria que têm à sua volta limita a sua capacidade para continuar a devorar e crescer.

Mas este quasar parece ter estado a engordar no mais elevado ritmo possível, alcançando dimensões surpreendentes, menos de mil milhões de anos depois do Big Bang, um verdadeiro recorde de velocidade em termos cosmológicos. "A formação dum buraco negro tão grande em tão pouco tempo é difícil de explicar com as teorias actuais", reconheceu Fuyan Bian, outro dos descobridores. Como termo de comparação, o buraco negro super-massivo que existe no centro da Via Láctea é cerca de três mil vezes mais pequeno.

Antxón Alberdi, físico especialista em buracos negros do Instituto de Astrofísica da Andaluzia, destacou outra implicação da descoberta. "A massa do buraco negro encontrada é tão alta que sugere que os buracos negros super-massivos no universo primordial cresceram muito mais rapidamente do que a galáxia anfitriã que os alberga, desafiando os actuais modelos da coevolução", declarou ao El País.

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Bram Venemans, astrónomo do Instituto Max Planck, na Alemanha, salientou a utilidade desta descoberta. De alguma forma, os quasares servem para analisar a composição do universo. Quanto mais brilhante é a sua luz, mais interage com os elementos existentes no espaço interestelar, incluindo os metais que se formaram nas primeiras etapas do universo e que podem revelar novos detalhes de como apareceram as primeiras estrelas após o Big Bang, frisou, no artigo publicado pela Nature. No futuro próximo, defendeu, mais objectos como este, talvez ainda mais antigos, poderão ser descobertos. "Estes gigantes vão mostrar novos detalhes de como era o universo poucas centenas de milhões de anos depois do Big Bang", afirmou. #Curiosidades