Os últimos anos têm sido especialmente desafiantes para a Aliança Atlântica. Tentando soltar-se do "confronto eterno" no Afeganistão, e lidando com as agressões russas no Cáucaso, no Ártico, e na Europa de Leste, a última coisa que lhe faltava era ter dissensões internas. No entanto é exatamente isto que está a suceder com o polémico governo de Recep Erdogan, Presidente da Turquia. Ancara tem sido grandemente criticada desde que Erdogan chegou ao poder, em 2003, por atacar as liberdades do povo turco, com motins sangrentos a sucederem-se, assim como prisões de agentes políticos opositores do governo, e até afirmações polémicas acerca do estatuto da mulher e da religião islâmica. Tais ações parecem fazer parte de um plano para estabelecer a Turquia como um dos três contendores pelo domínio do Médio Oriente, a par da Arábia Saudita e do Irão, e parecem incluir um afastamento gradual, mas muito real, da NATO.

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Tendo sido criada após a Segunda Guerra Mundial para conter e contrapor a União Soviética, a Aliança Atlântica sempre encarou a Turquia como um "tampão", um território que existia para absorver estragos que de outro modo cairiam na Europa, caso a Guerra Fria se tornasse quente. Apesar dos evidentes problemas, a entrada de Ancara na NATO, em 1952, permitiu-lhe aceder ao sofisticado armamento americano, e desde então tem sido um clássico cliente de Washington. No entanto, o repúdio europeu às ambições de se juntar à UE, e a noção de que a influência americana estaria a corromper o país na direção da miséria, trouxeram ao de cima uma vertente nacionalista e tradicionalista que nada tem a ver com a Turquia de Ataturk. Erdogan chegou ao poder e foram tomadas medidas para afastar Ancara de Bruxelas.

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A produção de um carro de combate próprio, o Altay, causou interesse, mas a Turquia já há anos que fabricava veículos blindados, sobretudo baseados em equipamento americano. Esta Quinta-Feira, contudo, foram divulgadas notícias que indicam que Ancara iria avançar com a compra de um sistema de defesa antiaérea chinês, facto que tem causado ansiedade na Aliança Atlântica desde que a proposta originalmente surgiu, em 2013, devido à questão de falta de compatibilidade com sistemas utilizados no resto da Europa, e também pelo engatinhar de Pequim para dentro do espaço europeu. A inserção de sistemas de armamento chineses na NATO e seus aliados é, pois, encarada como uma grave ameaça à segurança da mesma. Curiosamente, nesta lista de problemas inclui-se a possibilidade de o Egipto comprar caças chineses para suportar as aquisições recentes.

Outra razão de contenção entre Ancara e a NATO é a questão do Estado Islâmico. Crê-se que a Turquia esteja, pelo menos a nível limitado, a apoiar a organização terrorista, sobretudo ao permitir a passagem de indivíduos que se queiram juntar à sua causa.

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Tal apoio seria justificado pelo facto de que o EI tem estado a atacar maioritariamente alvos relacionados com os seus rivais na região. No entanto informações recentes parecem indicar que a organização pretende morder a mão que a tem alimentado, tendo infiltrado 3000 militantes em território turco para atacar alvos de grande relevância. Também se crê que alguns destes militantes planeariam ainda viajar para a Europa. A polícia turca não comentou o assunto, mas sabe-se que houve atentados recentes em cidades fronteiriças. #Terrorismo