Esta manhã a votação no Bundestag, em Berlim, aprovou a extensão em mais quatro meses do programa de ajuda à Grécia, que havia ficado em dúvida após a eleição do Syriza e das polémicas declarações do novo Primeiro-Ministro, Alexis Tsipras, e do novo Ministro da Economia, Yanis Varoufakis. Com 542 votos a favor e 52 contra, a votação ficou marcada pelo histórico apoio à medida, o maior desde que os programas de ajuda financeira se iniciaram. No entanto, a maior parte dos votos contra (29) vieram quer dos Democratas Cristãos de Angela Merkel, quer da União Socialista Cristã da Bavária, os aliados na coligação que forma o governo de Berlim, indicando divisões dentro do mesmo.

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Estes resultados surgem após se ter debatido longamente sobre se seria aceitável, ou não, manter Atenas dentro da Zona Euro, com uma sondagem a revelar que apenas 21% dos alemães apoiam a medida (note-se o mediático "Nein" do jornal Bild, que suporta a opinião contra futuros apoios à Grécia da maioria dos alemães). Por outro lado, a saída do estado helénico da UE poderia trazer uma calamidade financeira à Europa, como defendido por Varoufakis e aparentemente suportado pela especulação financeira das últimas semanas.

Como esperado, esta extensão não foi recebida de forma unânime, inclusive pelos próprios gregos. Dentro do partido do governo começam a ver-se fracturas, com membros eminentes a revelarem-se desiludidos pelas cedências que Tsipras se viu forçado a fazer para garantir o dinheiro alemão. Manolis Glezos, veterano da Esquerda grega, veio pedir desculpa ao povo helénico pela aparente quebra das promessas do Syriza, admitindo que seria complicado sustentar Atenas na UE sem negociações e cedências de ambas as partes.

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No entanto, esta visão de quebra das promessas e rejeição das negociações com Bruxelas e Berlim tem algum eco na sociedade grega. Na noite da passada quinta-feira, dia 26, deram-se violentos confrontos em Atenas devido às votações na Alemanha, com centenas de apoiantes da Esquerda a saírem às ruas, acusando Tsipras de trair as suas promessas. Apesar da manifestação ter sido, de um modo global, ordeira e pacífica, no final alguns indivíduos causaram desacatos, destruindo montras e queimando carros, num cenário de caos urbano que se vem tornando relativamente familiar desde que toda a crise se iniciou em 2008.

A realidade, contudo, é que a Europa não se pode permitir a abandonar a Grécia. Sabe-se que Tsipras estabeleceu contactos com Moscovo e Washington após ter sido eleito, ainda antes de falar com Bruxelas, e que a perda de uma tão importante zona geográfica seria um rude golpe geopolítico para o que se pretende ser uma comunidade europeia. Além disso, existe ainda o facto de que a Alemanha não se pode permitir a perder o dinheiro grego. Se a pressão for demasiada, Atenas poderá simplesmente desistir de pagar. Como diz um certo ditado americano, "se me deves cem dólares, pertences-me, se me deves cem milhões de dólares, eu é que te pertenço a ti".