Como se previa, a Grécia acabou por concordar com a extensão do programa de resgate, neste caso por mais 4 meses. Varoufakis capitulou praticamente em todos os pontos. Contudo, a proposta não passou como uma vitória esmagadora de Schäuble ou uma derrota humilhante para o novo governo de Atenas. O discurso oficial foi de consenso e trabalho em conjunto. O governo grego deverá apresentar, até amanhã, um conjunto de propostas para concretizar a extensão do resgate. Não há qualquer intenção de abandonar a zona euro.


O acordo prevê que a extensão do programa de resgate, além de ser por 4 meses, seja designada dessa forma (ao contrário do que a Grécia pretendia inicialmente); que o termo "troika" deixe de ser utilizado para denominar o conjunto das instituições internacionais, como os gregos pretendiam; que FMI e Banco Central Europeu continuem, juntamente com o Eurogrupo, a supervisionar o programa, sem acções unilaterais por parte de Atenas; que seja a Grécia a poder decidir que medidas de austeridade aplicar, sempre dependentes de avaliação e concordância das entidades externas; e ainda a gestão europeia dos fundos de recapitalização da banca (11 mil milhões). 


A "derrota" do Syriza foi tão invisível que até se tornou uma fonte de embaraço para o governo português. Na SIC, Marques Mendes criticou o desempenho político de Maria Luís Albuquerque, ao apresentar-se em reunião com Wolfgang Schäuble e dando-se precisamente aquele papel que a oposição ao Governo pretenderia: a subserviência em relação à Alemanha. Sem, depois, ter explicado em conferência de imprensa que o acordo alcançado era o que se pretendia. Alguns comentadores até sugerem que, se a Grécia vier a conseguir condições melhores no final dos 4 meses de extensão de resgate, que Portugal deve também "bater o pé" e exigir da mesma forma.


O que acontece ao Syriza na frente interna?

A Europa não esteve atenta à política interna da Grécia nas últimas semanas. Alguns comentadores, como José Manuel Fernandes no Público, apontam que o Syriza chegará derrotado e vai ter de impôr a austeridade que prometeu afastar de vez, e que terá de faltar às suas promessas eleitorais. Contudo, não temos ainda sinais que apontem nesse sentido.

O Syriza passou a ideia de que negociou em pé de igualdade com a Alemanha, que fez os impossíveis para obter flexibilidade, e que no fim Schäuble se revelou tão "maléfico" como sempre. Além disso, o Syriza continua a beneficiar do facto de nunca ter pertencido ao arco do poder, e estar portanto isento de responsabilidades governativas na situação actual. Alexis Tsipras anunciou, ontem de manhã, numa mensagem televisiva, que o acordo obtido foi "uma vitória", uma vez que "evita cortes em salários e pensões" previstos segundo o que estava negociado pelo governo anterior. Conjugando medidas de austeridade diferentes, e o estado de graça (e um posicionamento ideológico que lhe permite apontar baterias, por exemplos, aos armadores gregos multimilionários que não pagam impostos), Tsipras vai aproveitar todo o espaço político à sua disposição.