Homens de pelos nas pernas e farto bigode passearam nas ruas e nas praças de Istambul...de mini-saia, em protestos pela morte de uma estudante de 20 anos e pelos direitos das mulheres na Turquia. Os protestos de indignação pela vítima turca têm-se feito ouvir por toda a Turquia desde a morte da jovem, há mais de duas semanas, numa sociedade que parece estar a acordar para os seus direitos e para uma consciência pública sem par no ocidente.

A estudante terá sido raptada e espancada até à morte por um motorista de autocarro. Presume-se que a violência foi a consequência de a rapariga, Ozgecan Aslan, ter resistido à violação. A violência sexual é, na Turquia, uma infeliz agenda, que permite exacerbar o controlo social: "Não deixe a sua filha sair, eduque o seu filho", comentava uma jovem, Derya, nas redes sociais a propósito das consequências do sucedido. Acontecimentos muito dramáticos como o de Aslan geram cerrado controle social com um objectivo sociológico perverso: minar a confiança social dos turcos, principalmente nas camadas socialmente mais frágeis.

O caso indignou a população turca, que se tem manifestado por todo o país. Em Istambul, homens mais ousados revelaram uma súbita irreverência, expondo pela indumentária subvertida, a ilusória preconcepção de uma sociedade considerada como religiosamente conservadora e fundamentada na herança do império Otomano e nos desígnios da narrativa islâmica.

Na Turquia, a agenda da segregação, seja racial (curdos), sexual (mulheres) ou de expressão (jornalistas), é uma das principais agendas sociais. E política. Porque retirando a tentativa de controle de fronteiras para protecção do potencial de ameaças do ISIS na Síria, esta é a principal agenda interna de Ergodan: solucionar uma sociedade em contradição, em que parâmetros de uma religião e de uma narrativa religiosa competem com uma realidade cada vez mais alheia às pré-concepções religiosas.

A Turquia tem surgido na agenda mediática internacional como um país cada vez mais internacionalizado. Mas as notícias que descrevem a actual Turquia não são notícias que pugnem pela estabilidade fácil do povo turco, revelando uma sociedade em polvorosa mudança. Uma sociedade agitada, entre as decisões de um governo ainda convencional e com dificuldade em reconhecer os novos movimentos sociais, em rápida mudança, que a informação digital veio possibilitar.

Os manifestante usaram as mini-saias para denunciar um particular estereotipo social turco, disse um dos manifestantes: "Uma mulher que use mini-saia é vista na Turquia como provocadora", logo, como propriedade da moral social dominante.