Hatem tem apenas 14 anos, mas já viveu três guerras com Israel. O jovem de Gaza está já a preparar-se para a próxima. "Os israelitas mataram a minha sobrinha no Verão passado. Agora quero matá-los a eles", disse a uma reportagem da AFP, depois de terminar um treino de uma semana num campo de treinos com militantes das brigadas Ezzedine al-Qassam, o braço armado do Hamas. "Vou tornar-me um guerrilheiro da resistência", exclamou, orgulhoso, na cerimónia de graduação.

Hatem é só um dos 17 mil jovens que se graduaram no mês passado nos campos de treinos militares onde o Hamas está a preparar a nova geração para lutar contra Israel.

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No Verão passado, militantes dos dois lados combateram durante 50 dias, numa Guerra que matou cerca de 2.200 palestinianos e 73 israelitas e deixou parte do enclave em ruínas. Foi o terceiro conflito armado em menos de cinco anos, seguindo-se a oito dias de bombardeamentos em 2012 e uma guerra de 22 dois no final de 2008 e início de 2009.

As crianças estiveram na linha da frente do mais recente conflito. Dados das Nações Unidas mostram que mais de 500 foram mortas. Cinco meses depois do fim da guerra, milhares das que sobreviveram alistaram-se nos campos de treinos do Hamas. "Quero entrar para as Brigadas al-Qassam porque são as mais fortes em Gaza", justificou Mohammed Abu Harbid, de 15 anos.

Com a situação humanitária no pós-guerra a piorar em Gaza, um novo escalar da violência com Israel poderá estar à vista.

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Com muitas escolas a serem utilizadas como abrigos para os refugiados e uma taxa de desemprego de 41 por cento, não é difícil convencer os jovens a entrarem para os campos. O Hamas insiste que ensinar as crianças a lutar é uma parte legítima da "resistência" contra Israel. Quem não concorda são os activistas dos direitos humanos, que acusam o movimento de explorar crianças traumatizadas pela guerra. Os campos aceitam rapazes e homens dos 14 aos 21 anos.

Há anos que o Hamas realiza acampamentos de Verão para os jovens, mas estes treinos, com a duração de uma semana, são muito mais sérios. Dirigidos pela primeira vez por militantes das Brigadas al-Qassam, não incluíam actividades lúdicas nem visitas ao zoo. "Foram treinados intensamente, usando armamento pesado e foram ensinados a fazer emboscadas, para que possam liderar a próxima batalha pela libertação", escreveram as brigadas na sua página na internet.

O Hamas apressou-se a defender o treino militar. "Os media Ocidentais acusam-nos de militarizar a sociedade com os campos de treino, mas o que é que o Ocidente tem feito para impedir o inimigo de levar o cabo os seus crimes?", questionou Bassem Naim, oficial do Hamas.

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"O que ganhámos com 20 anos de negociações fúteis?", acrescentou. A mais recente ronda de conversações de paz entre Israel e Palestina, liderada pelos Estados Unidos, terminou em Abril de 2014.

Defensores dos direitos das crianças acusam, contudo, o Hamas de explorar as crianças com fins políticos. "Não discutimos o direito de um povo ocupado resistir, mas a resistência deve ser feita por adultos, não por crianças", disse uma activista à AFP. "Os campos estão a tornar os jovens mais agressivos, em vez de educá-los e ensiná-los a obedecerem às leis", concluiu.

Issam Yunis, líder do Al-Mezan, organização de direitos humanos de Gaza, frisou que os campos são particularmente perigosos num território onde mais de metade da população tem menos de 15 anos. "As crianças de Gaza estão traumatizadas com a violência e, por isso, são atraídas pelos treinos militares. Mas a prioridade deveria ser tomar conta do seu bem-estar físico e social", afirmou.