A dinâmica das relações políticas eurasiáticas é uma complicada disciplina na qual os governantes russos têm uma longa experiência, e da qual estão habituados a retirar grandes dividendos, salvo os erros e inépcia ocasionais. O relacionamento entre Moscovo e Nova Deli é, basicamente, um exemplo deste tipo de raciocínio continental, que trouxe a Índia para dentro da esfera russa já desde os tempos da Guerra Fria. De um certo modo, este facto não apenas fornece um grande e poderoso aliado, como também permite criar um equilíbrio de poder para com a China, sobretudo numa época em que as relações entre Moscovo e Pequim não eram as melhores. Desde o final da Guerra Fria, com o esgotar dos fundos russos, diversos acordos com Nova Deli permitiram a sobrevivência dos programas militares da antiga União Soviética.

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Possivelmente o mais visível destes acordos é o do caça furtivo Sukhoi T-50, mas esta semana surgiram notícias de que Moscovo e Nova Deli estariam prestes a assinar um acordo de co-desenvolvimento de uma outra aeronave militar, um projeto designado MTA e baseado no Ilyushin Il-214 de fabrico russo, de linhas muito similares ao KC-390 da Embraer. Este contrato, a realizar-se, seria extremamente importante para a Rússia, uma vez que a Índia sempre teve uma postura bastante aberta no que diz respeito aos seus negócios, nomeadamente em armamento, tendo recentemente feito aquisições em Washington, e estando a trabalhar noutras com Paris. Convém contudo, ter em mente que não obstante as boas relações de Nova Deli com Moscovo, a postura do governo indiano para com o peso-pesado dos aliados do conveniência russos na atual conjetura internacional, Pequim, é inerentemente hostil.

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Ambas as potências asiáticas retêm disputas territoriais de diversa ordem, que acabam por se imiscuir com a mais ampla questão dos desentendimentos chineses com outras nações. Em termos simples, Moscovo precisa do dinheiro indiano, mas é dúbio se pode contar com a sua conivência política.

Neste contexto, sinto a necessidade de trazer uma outra questão ao de cima. Existe um tipo de estratégia, no campo dos feitos militares, que é vista como uma das mais impressionantes de se conseguir concretizar. Chama-se o contra-envolvimento. Dá-se quando uma força militar que tenta cercar o inimigo é, ela própria, envolvida. Falo disto porque noutras áreas existe uma aparente tentativa de Vladimir Putin de concretizar esta estratégia, numa perspetiva política, aos seus inimigos internacionais, utilizando para esse fim os países que, por motivos económicos ou ideológicos, alinham com as suas políticas. Sergei Shoigu, Ministro da Defesa russo, iniciou na semana passada uma série de vistas à Venezuela, Nicarágua e Cuba (se esta última foi perdida para Washington, é algo que ainda está para se ver), tendo prometido apoio militar a estas nações.

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Entre as contrapartidas estaria a possibilidade de estabelecer bases para os bombardeiros russos poderem operar em todo o comprimento do Atlântico.

Entretanto o apoio político e militar de Pequim entranha-se na Turquia e na Argentina. É evidente que desde há muito que a Rússia se sente ameaçada pela postura da NATO, e é evidente que a atual agressividade na arena internacional é uma resposta à crise na Ucrânia. É o regresso do Grande Jogo, e resta ver quais serão as novas respostas do Bloco Ocidental.