Após um longo e brutal cerco, as tropas ucranianas na cidade de Debaltseve finalmente retiraram, cedendo terreno aos rebeldes pró-russos, três dias após o suposto cessar-fogo que havia sido decidido na semana passada em Minsk. Os cerca de 8000 militares que haviam tentado defender a cidade face a uma esmagadora ofensiva rebelde, bem-equipada com armas russas, sofreram nos últimos dois dias perto de 200 baixas, incluindo 22 mortos. Tendo já visitado a atual frente, o Presidente Petro Poroshenko falou para as agências noticiosas da coragem destes homens e classificou os rebeldes como bandidos, cuja real face se viu com o evidente violar do cessar-fogo.

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No entanto, tais afirmações tentam esconder aquilo que é visto como uma grave derrota, a pior desde o início da guerra, e que certamente dará azo a graves consequências políticas em Kiev.

Os rebeldes referiram que a batalha foi uma grande vitória para as suas forças, e que a retirada dos soldados leais a Kiev se dera após a completa quebra da sua capacidade combativa. A muito real humilhação do governo ucraniano, contudo, deve ser tomada a sério. Toda a confrontação com Moscovo já retirou muito a Kiev, começando na anexação da Crimeia, e passando pelas 5500 vítimas e mais de um milhão de refugiados da Guerra de Donbass.

Para a política europeia toda esta situação se revela extremamente problemática. Com a falta de respeito pelo cessar-fogo, é pouco provável que o mesmo se mantenha, apesar das declarações em contrário de Frederica Mogherini. O Canadá colocou mais sanções sobre a Rússia, mas os restantes países do Bloco Ocidental estão mais reticentes.

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Os Estados Unidos insistem que se deveriam entregar armas a Kiev para contrariar a superioridade do material rebelde, e indicações vindas da Lituânia indicam que o pequeno país do Báltico já estaria envolvido nesse processo, apesar de não indicar especificamente que tipo de armas estaria a fornecer. O resto da Europa está muito mais dividida, com alguns países inclusive a questionarem-se se não seria melhor simplesmente ceder na pressão a Moscovo.

Entretanto, Washington questiona-se abertamente acerca dos passos que poderiam ser tomados para punir a Rússia, uma vez que apesar da retórica, uma posição de maior hostilidade não está nos planos. Considerando que as possibilidades de pressão diplomática ainda não estão esgotadas, os representantes americanos esperam conseguir atacar Moscovo através da bloqueios no mercado energético, inclusive na Ásia Central, mas as possibilidades nesse campo podem já ser limitadas, uma vez que Putin ter-se-ia adiantado e já contactado líderes na região.

O presidente russo terá ainda mais uma carta na manga.

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A Federação Russa é o maior país do mundo, em área terrestre, correspondendo a muitos territórios e povos, alguns envolvidos em longas lutas pela independência, como no caso da Chechénia. Outros territórios, vizinhos da Federação, esperam conseguir aderir para obter alguma estabilidade, como sucedeu na Ossétia do Sul. Portanto, ninguém quer levar as sanções, ou o antagonismo à Rússia ao limite, uma vez que se acredita que, se o país colapsasse, o caos resultante seria incontrolável, e pior do que qualquer coisa que Moscovo possa fazer de momento. Na sua própria fraqueza, suportada pelas suas pequenas mas múltiplas vitórias, Putin segura a jogada que impede o xeque-mate.