No Parlamento turco surgiram confrontos físicos quando uma proposta de lei do presidente Recep Tayyip Erdogan gerou a suspeita de ser um instrumento para eliminar a oposição. A lei amplia os direitos da polícia usar armas de fogo, que lhes permite perseguir pessoas e veículos ou deter pessoas por até 48 horas sem mandato judicial. A lei autoriza disparos diante dos "manifestantes" mais violentos. E a prisão será garantida aos manifestantes que cubram o rosto com máscaras ou lenços em manifestações violentas. A lei, polémica não só na Turquia mas também perante a comunidade internacional, carrega um óbvio peso de hostilidade aos direitos humanos que a oposição ao governo turco não deixou de afirmar.

O problema desta lei não é tanto o seu conteúdo, mas a forma: porque nesta lei os governadores (políticos) poderiam ordenar prisões, ultrapassando a independência dos tribunais em que são os juízes e procuradores que assinam os mandatos judiciais. Em nome da segurança, já outros governos se tornaram em ditaduras. E na Turquia esta recorrência histórica não é anulada. Se para o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, o objectivo é proteger a sociedade,  para Metin Feyzioglu, Presidente da Ordem dos Advogados turca, esta lei tem "equivalência à Lei marcial", porque, perigosamente, passa ordens de prisão sem mandato judicial.

São nos últimos anos várias as limitações à liberdade de expressão e escândalos que ensombram o governo turco. Desde um escândalo de corrupção do governo turco denunciado por um apresentador de televisão, a um estudante que foi condenado por criticar o governo neste escândalo. Foram ainda centenas os processos do governo a manifestantes de 2013 na Praça Taksim Gezi em Istambul.

A oposição está consciente que o presidente não vai alcançar os seus objectivos políticos por meios democráticos. "A irresponsabilidade vem quando você impede o povo de se expressar livremente" disse Gareth Jenkins, um analista de Istambul do Instituto para a Segurança e Política de Desenvolvimento. 

O Comissário do Conselho da Europa para os Direitos Humanos criticou o projecto de lei, alegando que com ela aumentou a probabilidade de violações policiais dos direitos humanos. "Exorto, pois, o Parlamento turco a reconsiderar as actuais propostas, à luz das normas internacionais relevantes", disse Nils Muiznieks da UE em comunicado. 

A oposição vai impedir, a todo o custo, que a lei seja aplicada, disse um líder do partido pró-curdo Selahattin Demirtas. Os curdos são uma minoria da oposição que o governo turco tenta controlar. E foram precisamente estratégias da oposição curda que criou contra-tempos à assembleia para impedir que a lei fosse aprovada. A discussão gerou confrontos físicos com cadeiras, levando a que vários deputados necessitassem de receber tratamento na enfermaria da Assembleia.