As potências ocidentais devem tomar em considerações as legítimas preocupações de segurança da Rússia relativamente à Ucrânia. Esta foi a declaração de Qu Xing, embaixador da China na Bélgica, numa rara manifestação pública por parte de Pequim em assuntos internacionais. Qu Xing alertou o Ocidente para a necessidade de "abandonar o jogo de soma zero" com a Rússia, que a intervenção do Ocidente acelerou a crise e que a Rússia se sentirá tratada com injustiça se o Ocidente não alterar a sua posição. As declarações foram dirigidas à Xinhua, a agência de notícias estatal da China.


O apoio da China à Rússia, estando longe de constituir uma aliança entre os dois gigantes asiáticos contra o Ocidente, não deixa de ser uma alerta importante. À medida que caminha para o estatuto de primeira potência mundial, a China vai gradualmente adoptando uma postura mais assertiva com a sua política externa. A China e a Rússia partilham milhares de quilómetros de fronteira ao longo da Ásia e é importante, para ambos, uma relação cordial e construtiva - depois de muitos anos de confrontação e desconfiança, durante a Guerra Fria. 


Em 2014, a Rússia e a China, através da Gazprom e da Empresa Nacional de Petróleo da China, assinaram um acordo para a exportação de gás russo. Ambos anunciaram um investimento de 56 mil milhões de euros (40 pela Rússia e 16 pela China), num período de 4 a 6 anos, para o sistema de gasodutos necessário para tal, cruzando toda a Sibéria. Ao mesmo tempo, os governos anunciaram um acordo de exportação de gás para 30 anos, com a Gazprom a enviar 38 mil milhões de metros cúbicos/ano para a China.


Este acordo simboliza o alinhamento de interesses entre as duas potências. Não se tratou de acordos top-secret, misteriosos ou de conspirações com agências de serviços secretos. Pelo contrário; o acordo é totalmente público e é, mais que uma questão estratégica ou económica, uma afirmação política de Moscovo e Pequim perante o resto do mundo.


Acresce a isto que, em ambos os países, a natureza do poder não é democrática. As elites no poder não têm, qualquer tipo de oposição ou contrapeso à sua actuação. E se tiverem oposição, tratam de silenciá-la, como vimos em Moscovo,  mas também em Hong Kong. A Europa e os Estados Unidos sabem que não terão qualquer apoio de Pequim numa confrontação com a Rússia. E ainda que a China procure a estabilidade global, ou que a Rússia esteja a enfrentar uma grave crise económica de que pouco se fala, as declarações do embaixador têm um peso político muito forte.