Os membros do Boletim de Cientistas Atómicos dos Estados Unidos da América mantêm desde 1947 um exercício alegórico ao qual chamaram de "Relógio do Juízo Final" ("Doomsday Clock"). Simbólico como é, é utilizado para representar o quão próximo o mundo está de um holocausto nuclear, utilizando para isso a proximidade da meia-noite, o momento do fim de todas as coisas. Originalmente utilizado para representar, sobretudo, os perigos dos confrontos entre a NATO e a União Soviética, ainda sobrevive hoje. Em 1953, devido aos testes desenvolvidos pelas duas grandes potências naquela altura, esteve no seu período mais crítico, apontando apenas dois minutos para a meia-noite.

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Desde então a distância para essa hora fatídica nunca mais se encurtou assim tanto, na perspetiva dos cientistas que o mantêm.

No entanto, no início deste ano, o relógio foi ajustado novamente, para os três minutos para a meia-noite. A última vez que havia atingido essa marca fora em 1984, com a escalada da guerra soviética no Afeganistão e o posicionamento de novos mísseis nucleares americanos em solo europeu. Nessa época o mundo esteve mais próximo do que julgava de se lançar na Terceira Guerra Mundial, daí o quão sinistra é a ligação entre estes dois momentos, separados em 30 anos.

Recentemente, vídeos de uma entrevista feita a Vladimir Putin para o documentário "O Caminho para a Pátria-Mãe", de Andrei Kondrashov, mostram o Presidente russo a admitir que considerara a colocação dos arsenais nucleares à sua disposição em alerta, com vista a uma qualquer resposta da NATO.

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Já este fim-de-semana, também vieram do Kremlin ameaças de que os navios dinamarqueses seriam alvo de ataques atómicos caso Copenhaga aceitasse a colocação de mísseis de defesa estratégica no seu território. Convém ter em conta que este sistema, que foi uma das origens de toda a atual situação opondo o Kremlin à NATO, ainda na década passada, é um potente dissuasor nuclear, capaz de intercetar os mísseis de longo alcance que ameaçariam assim os Estados Unidos. Quaisquer ataques russos nesse sentido seriam severamente diminuídos.

Não obstante todo o contexto da crise ucraniana, o facto é que uma ameaça tão direta do uso destas armas não deixa de soar estranha. Segundo o analista George Friedman esta agressividade seria um sinal de uma situação que não é imediatamente evidente. A Rússia está a negociar de uma posição de fraqueza. A NATO expandiu-se para Leste, absorvendo nações da antiga União Soviética e que atualmente seriam parte de um corredor defensivo de Moscovo, que tudo fazia para os manter como zona tampão contra os seus inimigos.

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Com as revoltas coloridas apoiadas por Washington, e com o governo de Kiev a tornar-se claramente pro-ocidental, a Rússia sente-se seriamente ameaçada. Mais ainda, quaisquer quebras da legitimidade do governo poderiam levar à desagregação da Federação, ampla ou limitada.

Observe-se que as forças armadas russas não são tão poderosas como querem dar a entender. Há falta de combustível, munições, e peças para algum do equipamento mais sofisticado (muitas eram fabricadas na Ucrânia), e a maior parte do mesmo é simplesmente antiga. Daí o recurso ao nuclear. A juntar a isto teríamos uma situação económica crítica, afetada pelas sanções económicas e com o mercado energético de que Moscovo depende a subverter constantemente os seus ganhos. E este país que assim desespera é igualmente uma nação nuclear. Por isso a meia-noite espreita a três minutos de distância. #Política Internacional