Desde o início do ressurgimento da Rússia como uma potência militar, às mãos de Vladimir Putin, que os voos de bombardeiros de longo alcance, sobretudo os vetustos mas eficientes Tu-95 Bear, se tornaram numa visão algo comum. Ainda no ano passado estes aparelhos se tornaram conhecidos em Portugal quando entraram em espaço aéreo nacional e foram intercetados por F-16 da Força Aérea, fazendo surgir imagens que quase parecem surreais de aparelhos portugueses a voar a par com os gigantes da "ameaça vermelha". Com a crise da Ucrânia, os voos russos tornaram-se mais intensos e até mesmo mais agressivos, com encontros entre aeronaves de Moscovo e da NATO a tornarem-se notícia recorrente.

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Existe no ar um ambiente de Guerra Fria que parecia ter sido esquecido pelo tempo.

No passado dia 18 de Fevereiro deu-se um incidente cujos detalhes foram apenas tornados públicos esta quarta-feira (o incidente em si havia já sido reportado na altura e até causado algum susto entre os media), em que dois bombardeiros Tu-95 voaram ao longo da costa irlandesa, atravessando os corredores aéreos utilizados pelas companhias aéreas civis. Diversos voos foram assim impedidos de descolar, e aeronaves ainda no ar foram obrigadas a mudar de rota para evitar incidentes mais graves. Visto que os bombardeiros não tinham os transponders (aparelhos de rádio que identificam as aeronaves) ligados, o caso lançou o caos nos céus irlandeses, e apenas terminou quando dois Typhoons da Real Força Aérea intercetaram os Bears e os forçaram a voltar atrás.

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Também foi revelado que tinha havido um incidente anterior, igualmente na Irlanda, no início do mês.

Certamente que esta situação faz recordar incidentes similares ocorridos na Noruega, Escócia, Alasca, e até na espaço aéreo nacional, apesar de na maioria desses casos os bombardeiros terem mantido os transponders ligados e, portanto, haviam sido fáceis de manter debaixo de olho. A situação na Irlanda foi totalmente diferente e, a par com os exercícios militares em grande escala que Moscovo tem estado a desenvolver nas regiões do Báltico e do Cáucaso, demonstram que o país se quer insinuar como uma potência a ter em conta, especialmente depois da crise ucraniana, que causou cerca de 6000 mortos, ter levado a NATO a desenvolver uma forte força de dissuasão contra futuras intervenções russas.

Aos media ocidentais tem sido relativamente fácil pintar a Rússia como a agressora em toda esta situação, talvez com alguma razão, mas convém tentar ver as coisas da perspetiva de Moscovo, nem que seja para se compreender melhor o que está a acontecer.

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Após o final da Guerra Fria havia sido acordado que as antigas repúblicas soviéticas deveriam tornar-se zonas neutras, e que a NATO (criada para derrotar Moscovo na Guerra Fria) e a União Europeia não se expandiriam para leste. No entanto, visto que a Rússia estava grandemente enfraquecida na viragem do século, isso foi exatamente o que sucedeu.

Historicamente paranoicos e sentindo-se cercados, os russos não apreciaram o facto, que apenas deu mais legitimidade à ascensão de Vladimir Putin. A invasão da Geórgia foi um modo de a Rússia demonstrar que estava de volta à arena internacional, e aparentemente os líderes ocidentais não se aperceberam do facto. A má gestão do relacionamento com Putin eventualmente levou à situação atual. Ou, pelo menos, essa é uma maneira de avaliar toda a questão.