A crise entre o Bloco Ocidental e a Rússia tem dominado parte da cobertura mediática internacional durante os últimos 12 meses. Evidentemente que por bons motivos, uma vez que se trata de um assunto com graves repercussões em caso de má gestão do mesmo, e é evidente que todos os envolvidos tentam caminhar com cuidado sobre o gelo fino que é a política estratégica na Europa de Leste. No entanto, a verdade é que as sanções impostas à Rússia, apesar do efeito negativo que tiveram na economia desse país, também afetaram enormemente as economias ocidentais, sobretudo europeias, que tinham relacionamentos próximos com Moscovo. Esta realidade está por detrás de diversas hesitações e divisões entre estados e grupos, e, por exemplo, a Hungria recentemente assinou diversos acordos com o governo de Vladimir Putin e assumiu estar do lado do mesmo na arena internacional.

Uma das áreas que foram afetadas pela situação é a do armamento, uma vez que as forças armadas russas dependem muito de fornecedores estrangeiros para certas áreas que a sua capacidade industrial não cobre.

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Aliás, uma das motivações para a anexação do Leste da Ucrânia estaria na busca dos campos de cultivo e das indústrias pesadas (desenvolvidas na época da antiga União Soviética) aí situadas. Convém ter em conta que estas fábricas e a necessidade de criar um cordão de segurança mais extenso em redor de Moscovo há muito que pesam no pensamento estratégico russo.

Por outro lado, e como de resto sucede com outros países, a Rússia também procura fornecedores estrangeiros para expandir e diversificar o seu inventário, quando a produção interna não cobre todas as necessidades (isto não é especialmente novo, e mesmo as forças armadas dos Estados Unidos da América pesquisam constantemente fabricantes estrangeiros, algumas vezes fazendo compras milionárias). É nesta linha que surge hoje a notícia de que uma firma suíça terá feito um acordo recorde de 85 milhões de euros para vender redes de camuflagem a um cliente não revelado na Rússia.

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Este equipamento, conquanto não letal, pode, contudo, esconder os utilizadores de sensores radar e térmicos, sendo, portanto, equipamento de ponta para o campo de batalha moderno.

Escusado será dizer que a notícia da venda rapidamente se tornou polémica, mas Fabian Maienfisch, porta-voz das agências económicas suíças, defendeu a mesma dizendo que o contrato havia sido feito antes das sanções serem impostas, pelo que não seria coberto pelas mesmas.

Este não é, no entanto, o caso mais polémico a envolver a venda de equipamento militar a Moscovo. Em 2009, antes de toda a crise na Ucrânia se iniciar, Paris havia feito um acordo para vender dois navios de assalto da classe Mistral à Marinha Russa por 1,5 mil milhões de euros, pagos de antemão. O primeiro, o Vladivostok, já se encontra finalizado, e o segundo, o Sevastopol, iniciará provas durante o mês de Março. Da perspetiva francesa, a atual crise deixa Paris com dois navios muito dispendiosos e sem cliente nas suas mãos. No entanto já foi assumido pelo governo francês que a venda poderá ser finalizada assim que as tensões diminuam, deixando no ar uma sensação de hipocrisia que apenas joga a favor de Putin.

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Por outro lado, um negócio tão substancial dificilmente iria ser simplesmente abandonado por qualquer um dos lados.