Investigadores forenses descobriram o túmulo de Miguel de Cervantes, nome maior da literatura espanhola, quase 400 anos depois da sua morte. Os cientistas creem que junto ao autor de "D. Quixote de La Mancha" estavam também os restos mortais da sua mulher e outras pessoas que, de acordo com os registos, foram enterradas junto ao escritor no Convento das Trinitárias Descalças, em Madrid. Identificar e separar os ossos, bastante danificados, de outros fragmentos, será uma tarefa difícil, advertem os investigadores. Cervantes foi sepultado em 1616, mas o seu caixão perdeu-se mais tarde.

Quando o convento foi reconstruído, no século XVII, os restos mortais de Cervantes foram levados para o novo edifício e foram necessários séculos para redescobrir o seu túmulo.

Publicidade
Publicidade

"Morreu como um homem pobre. Um veterano de guerra com as suas feridas de guerra", disse Pedro Corral, vereador dos pelouros da arte, desporto e turismo da Câmara de Madrid.

A equipa de 30 investigadores utilizou câmaras, scanners 3D e radares para identificar o local de enterro, numa cripta escondida sobre o edifício. Dentro de um dos 33 nichos encostados à parede foram encontrados ossos de adultos que correspondiam ao grupo com o qual Cervantes tinha sido enterrado, antes de os túmulos terem sido mudados para o interior da cripta. "Os restos mortais estão em mau estado de conservação e não nos permitem fazer uma identificação individual de Miguel de Cervantes", disse a cientista Almudena Garcia Rubio.

Já durante a tarde desta terça-feira, dia 17, a equipa que procedeu à exumação e análise das ossaturas apresentou as conclusões em conferência de imprensa e confirmou os indícios.

Publicidade

"É possível considerar que entre os fragmentos encontrados na cripta da igreja das Trinitárias se encontrem alguns fragmentos pertencentes a Miguel Cervantes. São muitas as coincidências e não há discrepâncias", afirmou o director forense, Francisco Etxebarria. Futuras análises poderão permitir à equipa separar os ossos de Cervantes dos restantes, se conseguirem utilizar análises de ADN para identificar quais pertencem a quem.

O investigador Luis Avial disse na conferência de imprensa que Cervantes será enterrado novamente "com todas as honras" no mesmo convento, depois de construído um novo túmulo. "Cervantes pediu para ser enterrado lá e é lá que deve permanecer", apontou. A ordem religiosa do convento ajudou a pagar o resgate de Cervantes quando este foi capturado por piratas e mantido como prisioneiro durante cinco anos algures em Argel.

A cripta será aberta ao público no próximo ano pela primeira vez em séculos, coincidindo com o 400.º aniversário da morte do escritor. Pedro Corral disse à BBC que projecto não tinha apenas o objectivo de encontrar os restos de Cervantes, mas sim honrar a sua memória e incentivar as pessoas a aprenderem mais sobre o autor.

Publicidade

"Muitas pessoas vão redescobrir Cervantes graças a esta pesquisa", preconizou.

Nascido em Madrid em 1547, Cervantes foi o autor de uma das principais obras da literatura, "D. Quixote de La Mancha", publicado em dois volumes em 1605 e 1615. É um dos livros mais lidos e traduzidos do mundo.