A crise ucraniana iniciou-se com os sangrentos protestos na Praça Maidan, no centro de Kiev, entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, terminando com a fuga do então Presidente Viktor Yanukovych a 22 desse mês. A sua expulsão e o início do processo para a criação de um novo governo levou a manifestações por todo o país, e eventualmente à guerra civil. Apenas alguns dias depois, a 27 de fevereiro, militantes pro-russos começam a ocupar edifícios governamentais na Península da Crimeia, e assim se iniciou a intervenção direta estrangeira naquilo que de início parecia apresentar-se como uma questão sobretudo ucraniana, independentemente do contexto mais amplo da mesma.

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Não demorou que surgissem afirmações de que as milícias pro-russas que começaram a surgir por toda a Crimeia seriam de facto tropas de Moscovo. Tais declarações pareciam ser suportadas pelo equipamento completo e sofisticado que esses homens utilizavam, a sua postura profissional, e até pela identificação de movimentos militares e insígnias que indicavam que pelo menos o equipamento teria de vir do Leste da fronteira (algumas fontes chegavam mesmo a identificar claramente que unidades operacionais estavam no terreno, mas, evidentemente, não havia confirmação oficial). Entretanto Moscovo insistia que estes homens eram apenas locais desejosos de escapar à influência ocidental (e até pró-nazi, como descrita em certos círculos leais ao Kremlin). A anexação oficial deu-se a 7 de abril, após uma polémica sondagem pública.

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Esta foi a postura oficial da Rússia até ao momento, e expandiu-se igualmente para as tropas que combatem o Exército Ucraniano no Leste do país, mesmo com autoridades como a NATO ou o governo americano, a afirmarem que tanto o equipamento como os homens são, de facto, das forças armadas russas. No entanto, essa posição parece estar a mudar agora.

Na apresentação de um documentário realizado por Andrei Kondrashov, jornalista do Rossiya-1 (um canal estadual russo), intitulado "O Caminho para a Patria-mãe", Vladimir Putin surge a contradizer a anterior afirmação oficial. Declara que a anexação da Crimeia teria surgido durante uma discussão desenvolvida com outros membros do governo e das forças armadas na noite de 22 para 23 de fevereiro. O objetivo principal, segundo o Presidente russo, seria salvar Yanukovych, que estaria em risco de ser assassinado pela população ucraniana, e a decisão teria advido já no fim da discussão, envolvida nas consequências mais amplas que seriam trazidas pela iniciativa.

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A contradição não é total, contudo, uma vez que, ainda assim, Putin admite ter colocado tropas russas no terreno apenas depois de a situação se ter iniciado e com vista a apoiar as milícias anteriormente mencionadas.

O conteúdo completo do documentário é ainda desconhecido, uma vez que, apesar da apresentação, não existe ainda data de estreia. No entanto é interessante ver que surge numa altura em que a paz na Ucrânia parece estar a manter-se, apesar das mortes ocasionais (o número total de fatalidades da Guerra de Donbass poderá ser superior a 6000). Vem à ideia a possibilidade de que o filme seja parte de uma mais ampla operação de charme com vista a justificar a posição das milícias pro-russas e de Moscovo em toda a situação.