Já se falou neste espaço acerca das campanhas de charme levadas a cabo por Moscovo e por Pequim na América Latina. Em tempos, o Kremlin havia tido uma forte presença na região, mas a mesma havia regredido após o colapso da União Soviética. No entanto, após a chegada ao poder de Vladimir Putin os esforços para reavivar as ligações políticas na região foram revigorados, ainda mais agora que a crise ucraniana atinge novos níveis de tensão. A República Popular da China reafirma a intenção de vender caças a Buenos Aires, e a Rússia é um importante fornecedor de armamento a Brasília, não obstante a recente decisão do governo brasileiro de renovar a sua frota de caças com o Gripen de fabrico sueco (uma decisão com fortes bases nos orçamentos disponíveis).

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Já no início do ano, o Ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, havia feito uma visita na região, que o levou à Venezuela, a Cuba, e à Nicarágua, de onde agora surgem notícias referentes à possível compra de caças MiG-29 de fabrico russo. A veracidade da notícia parece ser, por enquanto, dúbia, uma vez que a aeronave em questão é um modelo algo caro, rápido e bem armado, que dificilmente representaria uma solução para os problemas de defesa encarados pelas forças armadas daquele pequeno país da América Central, mais relacionados com o tráfico de droga e outros crimes. Por outro lado, seria um golpe no atual status quo regional, que certamente preocuparia os Estados Unidos da América, que não desejam este tipo de armamento operado no seu quintal.

Por outro lado, as discussões entre os governos de Moscovo e de Manágua também preveem a instalação de bases militares russas na Nicarágua, sobretudo para apoio às patrulhas dos pesados bombardeiros de longo alcance, assim como dos submarinos, como, de resto, já sucedera na Venezuela.

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Convém ter em conta que um problema muito similar no Vietname tem preocupado Washington recentemente.

Creio não ser descabido ver aqui o que se poderia descrever como uma estratégia de contra-envolvimento por parte da Rússia em relação aos seus inimigos no Bloco Ocidental. Convém ver que, da perspetiva russa, a NATO e os Estados Unidos têm apertado o seu cerco a Moscovo nas últimas décadas, montando bases de mísseis defensivos no Leste da Europa, que neutralizariam boa parte de qualquer ataque nuclear russo. A instalação de novas bases levaram recentemente a uma muito direta ameaça do Kremlin contra a Dinamarca. Agora surgiram também outros avisos, suportados por Pequim, acerca das intenções americanas de expandir estas defesas para a Coreia do Sul, portanto cercando, de facto, a Rússia.

O estabelecimento de posições fortes na América do Sul poderia, nesta perspetiva, ser um modo de fugir ao cerco, e envolver, pelo lado de fora, a NATO. Em termos de tática militar, esta estratégia é vista como muito complexa e extraordinária se bem realizada.

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Em termos geopolíticos, os riscos e os ganhos são exponencialmente maiores. É evidente, contudo, que Moscovo deseja que a sua posição, e as suas ameaças, sejam levadas muito a sério. Entretanto, vai avisando a sua população de que a guerra pode estar à porta. #Política Internacional