Desde a ascensão de Vladimir Putin e do regresso dos ventos da Guerra Fria que as patrulhas dos bombardeiros russos se têm tornado numa das mais visíveis facetas do confronto entre Moscovo e o Bloco Ocidental. Estas tornaram-se mais comuns e ousadas com o adensar da crise ucraniana e a imposição de sanções económicas à Rússia, que prejudicaram economias de ambos os lados da velha Cortina de Ferro. Na Europa, as patrulhas destas grandes aeronaves dotadas de capacidade nuclear estenderam-se sobre a Escandinávia, as Ilhas Britânicas, e até sobre o espaço aéreo nacional, com interseções mediáticas feitas pelos F-16 portugueses, que não são estranhos a estas situações. Sobre o Reino Unido e a Irlanda, estes bombardeiros causaram recentemente incidentes perigosos com aeronaves civis, e é evidente que os russos querem demonstrar que podem lançar ataques surpresa em caso de necessidade.

Publicidade
Publicidade

Dão-se também situações similares do outro lado do mundo. As patrulhas dos bombardeiros russos usualmente atravessam o Estreito de Bering, sobrevoando o Alasca, território dos Estados Unidos da América. Também se expandem para Sul, utilizando bases aéreas de países alinhados com a Rússia para reabastecer. É exatamente esta situação que tem sucedido com o governo de Hanói. Segundo uma investigação apresentada pela Agência Reuters, o governo de Washington já apresentou uma queixa ao governo vietnamita para que o mesmo deixe de permitir que a aviação russa utilize a base da Baía de Cam Ranh para apoiar o que designa de "voos provocatórios", que terão surpreendido porta-aviões dos EUA e chegado inclusive até à ilha de Guam, um importante posto militar americano no Pacífico.

Publicidade

A base também alberga três submarinos da Marinha do Vietname, comprados à Rússia.

O pedido americano poderia parecer arbitrário, se não fosse o facto de que Hanói e Washington se têm vindo a aproximar com vista a participar numa frente unida contra as ambições territoriais da República Popular da China na região. A eles se juntam outras importantes nações asiáticas, como Taiwan, Coreia do Sul, Japão, Indonésia e Filipinas, todos com interesses que se contrapõem às reclamações territoriais de Pequim. A mediática "viragem para o Pacífico" da administração de Barack Obama teria como foco central este crescente antagonismo para com Pequim e apoio dos aliados locais, históricos e recentes.

No entanto, Hanói também mantém relações militares com Moscovo e os porta-vozes americanos já assumiram que não está no seu poder decidir a que aeronaves os outros países permitem passagem. Também afirmaram que seria desejável que o Vietname tivesse em conta o potencial de tais voos de desestabilizar ainda mais uma região já descrita como um barril de pólvora.

Publicidade

De Cam Ranh teriam descolado diversas aeronaves de reabastecimento aéreo Il-78 durante o ano de 2014, presumidamente para apoiar as patrulhas dos bombardeiros Tu-95 Bear.

Apesar de esta questão deixar um gosto amargo no relacionamento os dois países, a tendência é para a aproximação entre Hanói e Washington. Os EUA são vistos como um aliado importante para o futuro do Vietname, e está previsto que o Primeiro Secretário Nguyen Phú Trong leve a cabo uma visita histórica à capital americana durante o ano de 2015. Será a primeira vez que a mais alta instância do governo vietnamita fará algo do género.