Havia sido anunciado, no início do ano, que Moscovo e Teerão teriam assinado um acordo de maior cooperação militar, que não apenas correspondia às já então crescentes necessidades iranianas, mas também permitiu a Vladimir Putin começar a reunir os aliados, de modo a consolidar uma frente política no duelo internacional contra Washington. Entre as propostas de tal acordo estava a entrega de um avançado sistema de defesa anti-aérea designado de S-300, que havia sido cancelada em 2010 a meio de novas sanções contra Teerão. Com o acordo em relação ao programa nuclear iraniano na mesa, começam a abrir-se as portas para o mercado internacional. Dando-se finalmente a entrega dos mísseis, contudo, desaparece assim uma importante fonte de desentendimento entre a Rússia e o Irão, e fortalecem-se as relações entre ambos os países.

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Em termos políticos e económicos, é preciso ter em conta que o Irão é um dos maiores consumidores de trigo russo, e o entendimento agora a ser trabalhado permitirá uma ampliação das entregas de cereais, acompanhados de material de construção. Trabalhando numa base de troca de bens, Teerão deverá aumentar o envio de crude para a Rússia. Não sendo novo, este esquema de trabalho estaria já ser trabalhado há mais de um ano, mas a sua real implementação não fora ainda levada a cabo devido aos trabalhos no acordo nuclear.

A exportação de materiais e importação de petróleo poderão ser uma bonança para a economia de Moscovo, sobretudo com as sanções em curso devido à crise ucraniana, que prossegue apesar do Acordo de Minsk. Exercícios militares levados a cabo pelos países escandinavos, e a aproximação da Suécia e a Finlândia à NATO, preocupam Moscovo. As ações no Leste da Ucrânia poderão ter levado à efetivação dos receios de envolvimento pelo Bloco Ocidental, até porque o sistema anti-míssil, que é uma das bases da tensão entre Moscovo e Washington, poderá também vir a ser instalado na Coreia do Sul, junto ao extremo leste da Rússia (afetando ainda a China e a Coreia do Norte).

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Uma preocupação mais premente talvez seja a possibilidade de que o levantamento do embargo ao Irão possa fazer com que a relação privilegiada com Moscovo seja trocada por maiores exportações com a Europa. Sergei Ryabkov, assessor do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Kremlin, afastou tais preocupações na conferência de imprensa em que anunciou os novos acordos com Teerão, assumindo que mesmo que tais planos estejam no papel, precisariam ainda de grandes investimentos e construção de infraestruturas para se realizarem. Também sublinhou o apoio que Moscovo sempre dera ao Irão, "mesmo numa situação difícil."

Não obstante a tensão causada pelo programa nuclear iraniano, e que tanto preocupou Israel e a Arábia Saudita, Teerão sempre insistiu que o mesmo tinha como objetivo fins energéticos e não a construção de armas. Num outro plano, será interessante ver como Washington reage às tentativas russas para solidificar o relacionamento com Teerão. Parece que os EUA estão a colocar de parte, em grande medida, a ação política direta no Médio Oriente, decidindo-se por uma abordagem mais subtil. Sendo este o caso, não é de descartar a possibilidade de que Moscovo estaria a tentar não apenas melhorar a sua situação económica, mas também interferir na aproximação americana ao Irão.

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#Política Internacional