Tal como já sucedera no passado, a ação das forças armadas israelitas na Faixa de Gaza durante o verão do ano passado levantou imensa polémica, levando diversos organismos internacionais a pronunciarem-se contra a mesma. Esta segunda-feira, contudo, uma organização não-governamental israelita, chamada 'Quebrando o Silêncio', veio apresentar um relatório de 237 páginas acerca da conduta dos militares israelitas durante o confronto, intitulado "Foi assim que combatemos em Gaza". Declaradamente baseado em relatos anónimos de 60 soldados que haviam participado no conflito, o relatório oferece exemplos acerca de como as tropas israelitas haviam sido instruídas a disparar sobre qualquer movimento feito nas suas imediações, sem regras de confronto ou consideração por civis.

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Isto apesar de estarem a avançar sobre uma densa área urbana, fator que representa diversos problemas, mesmo entre pensadores militares.

Da perspetiva palestiniana, a crise foi iniciada quando dois adolescentes foram mortos por atiradores furtivos na Cisjordânia, a 15 de maio de 2014. No mês seguinte, a 12 de junho, três adolescentes israelitas foram raptados e mortos, especulando-se que seria uma represália pelo evento anterior. Uma operação foi lançada para encontrar os culpados e esmagar os insurgentes palestinianos na Cisjordânia, mas a situação estava já a ficar fora de mão, com sangrentas manifestações a serem iniciadas por civis de ambos os lados. Eventualmente fações palestinianas iniciaram o lançamento de rockets, o que, por sua vez, forçou a mão israelita.

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A Operação Margem Protetora iniciou-se a 8 de julho e terminou a 26 de agosto, altura em que Telavive dava como severamente diminuída a ameaça representada pelo grupo Hamas, que domina a região. No rescaldo do conflito contaram-se 72 baixas do lado israelita, incluindo 6 civis, e mais de 2200 mortos do lado palestiniano, 1400 dos quais seriam civis. Esta ampla diferença numérica chocou muitos, e já então se assumiu que os israelitas estariam a atacar propositadamente alvos civis, acusação que se sobrepunha ao aparente uso de munições consideradas ilegais. E é exatamente este tipo de acusações que o relatório da 'Quebrando o Silêncio' parece confirmar, até certo ponto.

Porta-vozes das forças armadas israelitas já responderam, afirmando que apesar de estarem interessados em investigar quaisquer afirmações avançadas por organismos não-governamentais, o grupo em questão também já havia feito acusações similares no passado, mas recusara-se a apresentar provas aceitáveis. Por outro lado, o próprio exército já levara a cabo diversas investigações internas, e as mesmas seriam suficientes.

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Existe uma questão subjacente a este assunto que vai para lá da problemática israelo-palestiniana. A Faixa de Gaza é uma das zonas mais densamente povoadas do mundo, e o combate urbano representa um dos maiores pesadelos de qualquer soldado, dado que os perigos podem vir de qualquer lado. Isso significa que existe uma justificada frieza no uso de poder de fogo avassalador para suprimir quaisquer perigos prováveis. Pior ainda, membros de organizações militantes como o Hamas são indistinguíveis dos civis, e chegam mesmo a usá-los como armas ou escudos. Durante uma conferência apresentada pelo grupo de advocacia Shurat HaDin, Benny Gantz admitiu que as democracias ocidentais precisam de uma "nova lei da guerra" para lidar com este tipo de ameaças, e que será inevitável que futuros confrontos se tornem mais sangrentos. #Terrorismo #Política Internacional