Era dia 22 de Março. Daniela Teixeira e Ana Oliveira preparavam-se para mais um dia de trabalho em Bruxelas, não prevendo que o coração da cidade estava prestes a sofrer um duro ataque. Voltando no tempo, as jovens recordam com uma minúcia atroz do dia em que uma acção terrorista suicida, reivindicada pelo grupo extremista auto-proclamado Estado Islâmico, abalou o centro de política internacional, com explosões no aeroporto e no metro Malbeek, em Bruxelas.

Daniela preparava-se para sair de casa quando, às 8.45, recebeu um telefonema que a deixou em choque. Naquele momento, “só” tinha ocorrido o atentado no aeroporto e, uma vez que Daniela utiliza o metro para se deslocar para o trabalho, tentou perceber se o mesmo circulava com normalidade.

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Decidiu esperar e ainda bem. “Às 9.10 houve uma explosão no metro de Malbeek, duas estações depois da minha casa, duas estações antes do meu local de trabalho. E eu entro às 9.30, costumo estar a passar em Malbeek por essa hora. A explosão, no entanto, foi no sentido contrário ao que eu viajaria”.

A viver no centro de Bruxelas, naquele dia a cidade “era uma sirene só: só se conseguiam ouvir as sirenes das ambulâncias e da polícia. Um helicóptero a sobrevoar. Os feridos tinham de chegar ao hospital o quanto antes e começaram as perseguições aos cúmplices dos atentados. Era impossível tentar pensar noutra coisa ou fazer outra coisa que não ler notícias sobre o sucedido e responder às mensagens dos amigos e familiares”, explicou. Depois do caos, apenas uma sensação: o silêncio. “As pessoas regressaram a casa como puderam e no fim do dia Bruxelas era uma cidade fantasma”.

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Adrenalina

Com alguma distância temporal, Ana Oliveira, que trabalha na mesma rua da estação de Malbeek, descreveria “um dia em que ninguém teve muito tempo para assimilar o que estava a acontecer”, acrescentando que viveu tudo “à base de adrenalina”. Durante longas horas, Ana recorda que ficou em situação de lockdown, sendo que do seu prédio conseguia acompanhar as operações de segurança e socorro que decorriam na rua. Trabalhar era impossível. Entre as notícias que assaltavam o escritório e a ânsia de comunicar com amigos e familiares, não havia “cabeça” para o trabalho. Na sequência do pedido das autoridades para comunicarem através das redes sociais uma vez que as linhas telefónicas haviam sido cortadas, Ana recorda que pregou um grande susto ao irmão que só teve notícias suas cerca de duas horas depois.

Foi um dia avassalador e foi já em casa, no dia seguinte, que Ana conseguiu assimilar tudo o que tinha acontecido. Mas, no meio da #Tragédia, a jovem recorda, sobretudo, a solidariedade entre as pessoas.

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“Um colega de trabalho levou-me a casa de carro quando a polícia nos deu finalmente ordem para sair do escritório, já que não moro em Bruxelas e todos os transportes públicos dentro e para a capital estavam cortados”, contou.

O regresso à normalidade

Apesar de prevalecer um forte desejo de voltar à normalidade, as pessoas continuam a falar do que aconteceu. “Discute-se o que pode ser feito para evitar que novos atentados aconteçam. Debate-se o porquê de cidadãos belgas se terem juntado ao Estado Islâmico”, disse Daniela. E no dia-a-dia muita coisa mudou. Se desde Novembro último (com os atentados em Paris) já era habitual ver militares na rua, hoje a proporção é outra. As ruas e os centros comerciais têm menos afluxo do que era habitual, sendo hoje incomum entrar num centro comercial sem passar por um detector de metais.

Todavia, nem o quotidiano de Daniela nem o de Ana mudaram muito. Ambas têm mais atenção ao que as rodeia mas não deixam de fazer o que quer que seja. De qualquer modo, Ana Oliveira não esconde o que sente num primeiro instante assim que ouve sirenes, algo muito habitual na rua onde trabalha. “Já não penso que é só a polícia a escoltar algum vulto importante a caminho de uma cimeira europeia, mas penso automaticamente que pode ser algo bem pior como um novo atentado”, partilhou.

Marta Oliveira estava em Paris #Terrorismo