Nancy Gomes - Acredito que alguns venezuelanos ainda tenham esperança. O problema é que, na actual conjuntura de crise, em que é urgente adoptar medidas para impedir que a situação se deteriore ainda mais, não conseguimos observar uma estratégia alternativa clara por parte do governo de Nicolás Maduro a não ser a de manter-se aferradamente no poder.

Andrés Malamud - A esperança depende de cada um. A certeza é que a Venezuela piorará muito antes de melhorar um pouco.

Elio Pestana Duarte - Para muitos já é a última oportunidade mesmo que isto seja uma missão impossível. Os venezuelanos estão perante uma restrição implícita de saída do país.

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Por outras palavras, as dívidas astronómicas assumidas pelo governo com as companhias aéreas por causa dos valores cambiais levaram a que muitas destas companhias deixassem de fazer voos desde e para Venezuela, e as poucas que continuam a trabalhar obrigam a que as passagens sejam compradas fora do país e a valores até três vezes acima do dito normal.

Por outro lado, nas ruas, a cada 26 minutos morre uma pessoa por causa de situações de violência. Violência esta que até podemos dizer que é um método de terrorismo de estado visto que, segundo dados estatísticos, mais de 90% dos casos de homicídios ficam impunes. As pessoas são obrigadas a viver num estado de alerta constante o que faz com que percam o foco que dá origem a toda a situação.

E se juntarmos a isto a perda de qualidade de vida e à total destruição do sistema de saúde, em resumo e em poucas palavras, a impossibilidade de avançar com um projecto de vida programado obriga a centenas de pessoas a sair do seu entorno da sua “zona de conforto” e a partir para outros destinos visto que “fora… nunca vão estar pior”.

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Mario Miguel da Silva - São muitos os venezuelanos e portugueses que estão a deixar uma vida e muitos sonhos neste país por uma esperança de vida noutros países. Mas também encontramos muitos emigrantes que não querem abandonar uma Venezuela que os recebeu quando saíram das suas terras. Temos também aqueles que ainda não emigraram por não terem meios económicos para faze-lo ou porque não conseguem transferir os seus bens para o estrangeiro.

Alguns venezuelanos continuam a acreditar que o país tem recursos e meios que permitem continuar a fazer dele a “nação do futuro”. É uma crença viável na sua opinião?

Andrés Malamud - Não. A Venezuela, como quase todos os países exportadores de petróleo (a Noruega é uma excepção), está arruinada pelo fenómeno conhecido como “maldição dos recursos”. O seu futuro, como o seu petróleo, é bem negro.

Nancy Gomes - A experiência ensinou-nos que os recursos (quantificáveis ou não) e meios (pacíficos ou violentos) à disposição dos Estados não são suficientes para garantir o desenvolvimento e progresso de uma nação.

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Esses mesmos recursos e meios têm de ser mobilizados/utilizados no sentido de construir capacidades que permitam aos Estados, hoje mais que nunca de uma forma sustentável, alcançar objectivos e/ou obter respostas que venham ao encontro das suas ambições.

Desde a sua descoberta em território nacional (1917), o petróleo tornou-se o principal recurso gerador de riqueza em torno do qual desenvolvem-se as distintas actividades económicas da Venezuela. Com Chávez consolida-se o modelo monoexportador e, por conseguinte, a economia venezuelana passa a estar altamente vulnerável às variações dos preços da commodity. Enquanto se mantiver este modelo, a Venezuela nunca será como diz “a nação do futuro”. #Política Internacional #Emigração