É um fenómeno tipicamente português, o de responder como estamos com uma expressão vaga, mas num tom, quase diria, derrotista. É comum tal resposta fazer-se acompanhar com um encolher de ombros ou um olhar cabisbaixo. "Cá se vai andando", dizem uns. "Nunca pior", também já ouvi.

Nem mesmo respostas mais positivas como "está tudo bem" escapam à melancolia tipicamente portuguesa, onde parece sempre haver um senão que fica por dizer.

É muito raro encontrar pessoas que expressem felicidade ou, pelo menos, contentamento quando questionadas sobre as circunstâncias actuais. É por isso que alerto: quando perguntar a alguém como está ou como tem passado, prepare-se para o pior - quer o dito, quer o implícito.

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Talvez o problema seja a crise, essa figura já tão banalizada como a Morte, com a sua capa negra e a sua foice. Se personificássemos a crise talvez a levássemos menos a sério.

Em 27 anos de vida, a crise sempre foi um fantasma presente. Não nasci uma época de prosperidade, mas comparando o estilo de vida da minha infância com o de agora, facilmente percebo que algumas coisas estão agora piores, mas há muito que mudou para melhor também.

Antes do Ikea, comprar móveis era um investimento sério. Antes dos telemóveis e dos pacotes promocionais das operadoras, falar ao telefone era quase um luxo. Antes da internet perdia-se mais tempo na fila do banco ou a fazer compras. Antes da crescente perda do poder de compra, as promoções não abundavam tanto como hoje.

Verdade ou consequência

Será o derrotismo uma (das) consequência(s) da crise ou a crise uma consequência do derrotismo?

Posso apenas especular e provavelmente não muito bem, porque para os mais velhos não sou exemplo (quantas vezes não ouvi dizer que no tempo deles "é que era!" e que já não se fazem pessoas "como antigamente") e para os portugueses nem sequer sou de cá.

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Ser emigrante vinda de um país em declínio para um país que aparentemente prosperava fez-me observar peculiaridades como esta, a de nunca estar tudo verdadeiramente bem quando perguntamos a alguém como está, e a outra, a crise ser presença constante.

A verdade é que, claro está, não é só de derrotismo que se faz uma crise. Mas o estado de espírito em muito contribui para se ultrapassarem as dificuldades. Basta observarmos líderes, empreendedores e pessoas que levem em frente a sua ambição. Nunca ouvi deste género de pessoa uma resposta menos positiva do que um enfático "está tudo óptimo".

É tudo uma questão de perspectiva.