Estava pronto para iniciar uma nova experiência em matéria de reportagem. Era uma manhã de Dezembro, fria, o sol ainda não tinha raiado. Conforme combinado bati à porta do Mosteiro de Singeverga, em Roriz, S. Tirso. Entrei por volta das 6h50m. Às 7 horas começaram as primeiras orações do dia na igreja. 

Fiz muitas perguntas e obtive algumas respostas, como o facto de ser a regra de S. Bento que pauta (ou regula) todo o funcionamento do Mosteiro de Singeverga. O quotidiano dos monges beneditinos constrói-se em dois princípios indissociáveis: ora et labora (reza e trabalha). A #História está sempre presente em cada momento; por exemplo, fiquei a saber que a reforma monástica foi iniciada pelo rei D. Sebastião e continuada pelo Cardeal D. Henrique, dando origem à criação das congregações dos monges negros de S.

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Bento do Reino de Portugal. Já a chamada casa mãe destas congregações é o Mosteiro de Tibães. Singeverga foi fundado em 1892 e é o único mosteiro beneditino masculino existente em Portugal.  

Família Gouveia Azevedo doou à Ordem Beneditina a quinta   

O mosteiro de Singeverga tem um museu onde se pode apreciar a arte africana e observar uma coleção de borboletas. O tempo corre, o relógio marca meio-dia, a hora da refeição chega. Durante o almoço, já depois da oração, fiquei a saber mais um pormenor: a quinta de Singeverga, onde está o mosteiro, foi em tempos propriedade da família Gouveia Azevedo, que mais tarde a doou à Ordem Beneditina. No entanto, só trinta e nove anos depois da sua fundação, é que a comunidade se instalou na quinta, tendo em 1955 sido construído outro edifício. Este local de meditação e reflexão dos monges é aberto também a hóspedes que optam por disfrutar do silêncio e paz para se encontrarem consigo próprios.

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Os visitantes, quando optam pelo recolhimento, têm um quarto simples com casa de banho, de acordo com a vida monástica: cama, secretária, cadeira e uma pequena janela nos aposentos mostra o mundo exterior. Existe ainda no mosteiro uma tipografia onde são imprimidos todo o tipo de trabalhos necessários.

Licor: um segredo bem guardado

No campo cultiva-se para que nada falte à mesa. As vacas pastam naqueles prados verdejantes e o seu leite é um bem precioso. No entanto, há um outro espaço que é motivo de curiosidade das pessoas, onde se fabrica o licor de Singeverga, o único monástico que é produzido em Portugal. Ficamos a saber que este licor é composto de açafrão, canela, noz-moscada, cravinho e baunilha em vagem. Depois passa-se à fase da maceração, onde são misturadas as várias especiarias em álcool etílico a 95.º, durante um período de quatro dias, e pelo meio há à chamada agitação manual. As garrafas levam um rótulo com marca monástica. Quanto à fórmula secreta desta bebida, chegou aos monges através do amigo e engenheiro químico Botelho.

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Desengane-se, quem pensar que há por trás deste licor uma máquina publicitária, tudo é divulgado pelo tradicional sistema do boca-a-boca. Locais para encontrar o licor à venda? No mosteiro e em algumas superfícies comerciais.

O dia termina em Singeverga. Regressamos ao mundo que está para lá do mosteiro. As imagens desta experiência resumem-se a um quotidiano feito com toda simplicidade e assente em dois pilares essenciais: oração e trabalho.