Dário Guerreiro é “Môce dum Cabréste” no Youtube. O seu canal é de humor e atualmente conta com mais de 94 mil subscritores. É autor de um livro de poemas “Tique Tal” e atualmente enche várias salas de teatro com espétaculos de stand-up comedy.

Como é que surgiu a ideia de criar um canal no YouTube?

O meu primeiro canal no YouTube foi, em 2006, fruto de uma ideia conjunta. Eu e mais 3 amigos tínhamos um projeto de humor chamado Arranhí Pacanherra — só o nome já dá para depreender a qualidade da coisa — e na altura o site, ainda longe de ser o fenómeno que hoje é, era onde alojávamos os nossos sketches. Filmávamos com uma reles máquina fotográfica umas parvoíces nonsense e eu fazia magia nesse colosso da edição de vídeo que foi o programa Windows Movie Maker. Em 2010 cada um de nós estava num ponto diferente do país a estudar e esse foi um dos gatilhos para criar o meu próprio canal.

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Sentes que tens alguma mensagem a passar às pessoas que te assistem?

Nos meus vídeos e espetáculos há sempre uma opinião que, através do meu humor, se dá a conhecer, mas não fui incumbido de transmitir ao público uma mensagem de suma importância para a humanidade. Esse é o papel do Papa. [VIDEO]

Costumas receber comentários negativos por parte das pessoas que não têm a mesma opinião que tu?

Considero que a discordância é necessária e positiva. Discordar faz-nos pensar e o pensamento nunca aleijou ninguém. Não me recordo de ter sido alvo de algum ataque por parte de alguém que apenas discordou de algo que disse. O que é frequente, infelizmente, é o surgimento de pessoas que, confrontadas com uma visão diferente da delas, apenas insultam. Não conseguem melhor. Mas como também têm Internet e liberdade de expressão, temos que levar com elas. Mas costumo ignorá-las. [VIDEO]

Sem papas na língua. Apenas tu e uma câmara. O teu canal tem mais de 95 mil subscritores, qual é o teu segredo de sucesso?

Se a minha resposta soar a clichê, é porque a pergunta também o é.

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Não há nenhum segredo. O fruto do trabalho de qualquer youtuber está on-line para quem quiser ver. O sucesso é um conceito relativo e tem a ver com as expectativas que alimentamos: há colegas com bastante mais sucesso que eu e o “segredo” que resultou para eles não foi o mesmo que resultou para mim. Lançar vídeos com regularidade e apresentar um conteúdo que as pessoas queiram ver, em traços gerais, é o “segredo” que resulta para a maioria dos youtubers.

Olhas para os teus seguidores como teus amigos?

Claro que não vejo os meus seguidores como meus amigos. A amizade deve ser um clube muito restrito na nossa vida, e na minha é tão restrito que não está lá quase ninguém. Mas sei, por experiência, que é fácil confundir o mundo virtual com o mundo real. Apesar do mundo virtual ser feito por pessoas reais, a Internet permite-lhes serem quem não são. A persona Môce dum Cabréste permite-me, por exemplo, dizer coisas que seriam inapropriadas em contextos que não sejam os palcos ou vídeos no YouTube.

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"Tique Tal" é o nome do teu livro de poemas. Queres falar-nos um pouco mais sobre ele?
 
O Tique Tal é fruto da minha intenção em provar que um comediante pode ser muito mais que isso. A minha paixão pela poesia é antiga: quando tinha 17 anos lancei o meu primeiro livro de poemas “sérios” (chamado Olhares, uma edição do município de Lagoa, no qual habito) e lembro-me de pensar que não queria ficar por ali. Mas à medida que a minha carreira de comediante ia ficando consolidada, a hipótese de lançar um livro de poesia parecia cada vez mais distante.
É, então, que surge a ideia de misturar estas duas valências. O Tique Tal é um livro de poesia humorística e satírica guarnecido por ilustrações também de minha autoria. O prefácio da obra é do comediante Rui Xará. Não sendo um livro hilariante, é um caderno que arranca risos e dispõe bem. Estou orgulhoso do resultado final e o feedback dos leitores tem sido positivo. Pode ser comprado no meu site.
 
Em 2012 foste convidado para fazer stand-up comedy pela primeira vez. Como foi a sensação de estares em frente a 200 pessoas?
 
Este mês de fevereiro marca o meu 4º ano de carreira. Naquele dia o café concerto do Teatro Municipal de Portimão tinha esgotado (com bilhetes a 2€) para ver um jovem da terra que se tinha popularizado com os seus vídeos. Eu não queria ter escrito na terceira pessoa, mas achei que ficou giro assim. Adiante. A sensação foi boa. Tão boa que o vício se instalou e hoje tudo o que faço é para ter público à minha frente quando subir a um palco.
 
Tens alguma história engraçada com algum(a) fã que tenhas encontrado na rua, que querias partilhar?
 
Já partilhei esta história num vídeo. Há cerca de um ano atrás, quando fui no meu pobre carrito atuar a Lisboa, tive um acidente na A5 e bati no carro da frente. Nada grave, apenas um toque: o carro não conseguiu travar porque o piso estava escorregadio e porque é uma lata velha. Como era hora de ponta e a afluência era bastante, um carro da Brigada de Trânsito da GNR que passava parou atrás do meu. Sob uma incómoda chuva-molha- parvos, o guarda saiu do carro, dirigiu-se ao meu e fez um gesto para eu baixar o vidro. Assim que o fiz ele olhou para mim e disse: “você deve estar a pensar que conduzir aqui é como conduzir no Algarve!” Pois. Aparentemente ele acompanhava os meus vídeos. E foi muito prestável ao escoltar-nos dali para fora.
 
Hoje em dia consegues gerir a tua vida com o dinheiro que o YouTube te dá?
 
Não. Há quem consiga, mas em Portugal contam-se pelos dedos de uma mão. Só quem pular a fronteira e mergulhar no mercado da lusofonia, dominado pelos brasileiros, é que tem hipótese de viver condignamente apenas a fazer vídeos. A esmagadora maioria de nós terá sempre que ter uma fonte de rendimento externa para poder alimentar o hobbie do YouTube. Mas como quem corre por gosto não cansa, aqueles que fazem vídeos pelo prazer de os fazer são os que, independentemente das adversidades que surjam, continuarão por cá durante muitos anos.