O Carnaval é uma festa de origem pagã que se comemora a nível mundial. Portugal não é excepção, fazendo sair à rua, todos os anos, milhares de foliões de Norte a Sul do país para os tradicionais corsos carnavalescos. Actualmente, em Lisboa, as tradições carnavalescas estão unicamente direccionadas para as crianças. Contudo, outrora, era célebre o Carnaval da capital.

Entre as brincadeiras do Carnaval lisboeta estavam as Cegadas, com possíveis raízes nos autos medievais. Eram farsas burlescas representadas nas ruas e tinham como tema as cenas da vida quotidiana. Outra característica tradicional do Carnaval lisboeta era a criação das Danças. Evidenciavam-se a Dança da Luta; a Dança das Espadas; a Dança da Bica e a Dança dos Machetins. Em todas, os participantes executavam vários números acrobáticos, mostrando a sua destreza, força e equilíbrio.

Na corte como nas ruas, reis e nobres disfarçavam-se também. Os reis D. Pedro II e D. João V mascararam-se de frades e mendigos em alguns Entrudos, ao passo que as rainhas D. Francisca de Sabóia, D. Sofia de Neubourg e D. Mariana de Áustria introduziram na corte os bailes de máscaras. Enquanto na corte eram introduzidos estas novas formas de festejar o Carnaval, o povo continuava a festejar na rua. Só mais tarde, em 1823, teve lugar, no Teatro do Bairro Alto, o primeiro baile de máscaras público.

As tradições ancestrais de festejar o Carnaval em Lisboa, mantiveram-se durante todo o séc. XIX. Contudo, a partir de meados desse mesmo século, com o triunfo dos liberais e a derrota dos absolutistas, as celebrações carnavalescas passaram a ter uma conotação mais política, através do aparecimento, no meio dos desfiles de mascarados, da figura típica do Xé-xé. Esta figura era, nada mais, nada menos, que uma sátira à Lisboa do séc. XVIII e à antiga nobreza portuguesa, maioritariamente apoiante dos absolutistas. O aparato deste personagem consistia num indivíduo trajado à moda dos finais do séc. XVIII com uma casaca comprida, com punhos de renda, culottes,  sapatos de fivela, e cabeleira de estopa. A peça mais emblemática do trajo do Xé-xé, era o enorme chapéu bicórneo que ostentava sobre a cabeça e onde, geralmente, se escrevia uma frase de conteúdo obsceno.

Existiam ainda outras figuras típicas como a velha de capote e lenço, a qual era uma sátira à moda do início do século XIX. O rei David, ou rei Mouro era também uma figura indispensável em qualquer desfile.

Para além dos desfiles de mascarados, a partir de finais do séc. XIX, com a abertura da Avenida da Liberdade, vários comerciantes de Lisboa reuniram-se para organizar um desfile de carros alegóricos, cada um deles ostentando o nome da casa comercial que patrocinava.

Com a Implantação da República, em 1910, o velho Carnaval passou a ser considerado bárbaro e de mau gosto. Contudo, a tradição não se perdeu totalmente e os desfiles de Carnaval em carros alegóricos pela Avenida da Liberdade mantiveram-se, até aos finais da década de 1920, conforme atestam vários documentos fotográficos. Muitos dos carros alegóricos deixaram de fazer referência às casas comerciais, passando a referir o próprio regime republicano, com o objectivo de doutrinar o povo no novo regime.

A partir do golpe militar de 28 de Maio de 1926 a instável I República deu lugar ao Estado Novo. Com essa mudança política para um regime autoritário e a consequente supressão das liberdades de expressão e reunião, o Carnaval, com toda a sua folia, perdeu, definitivamente, o lugar cimeiro das festividades lisboetas, passando a ser celebrado com simples desfiles pela Avenida da Liberdade, os quais mostravam as tradições folclóricas de cada região do país e das possessões ultramarinas, no contexto ideológico do novo regime que defendia uma nação multi-cultural e multi-étnica.

A revolução dos cravos em 25 de Abril de 1974 e a posterior democracia não foram suficientes para restaurar a antiga tradição do Carnaval lisboeta. #História