Autarquias são, no léxico político português, os concelhos e as freguesias, as mais pequenas divisões administrativas do território português. O termo é utilizado quer para designar os territórios e populações que os constituem, quer para referir os respectivos órgãos políticos - as Câmaras Municipais, nos concelhos, e as Juntas de Freguesia. A Câmara Municipal é o órgão político máximo do concelho, que é a instituição mais importante para a estruturação do poder local em Portugal. Os órgãos de Poder Local, pela sua natureza, são os que estão física e geograficamente mais próximos dos cidadãos, pelo que os seus assuntos são seguidos com atenção pela comunicação social. No caso das grandes cidades, o tema pode constituir-se de interesse a nível nacional.

O mapa dos concelhos actual deriva directamente da reforma administrativa de 1836, implementada com o regime constitucional saído da guerra civil. Embora centenas de concelhos tenham sido extintos nessa ocasião, as novas autarquias tornaram-se a base de todas as restantes divisões administrativas existentes. E não só nenhuma outra nomenclatura (distritos, províncias, NUT II, NUT III, Comissões de Coordenação Regional, etc.) retirou importância aos municípios, como todas elas foram sempre criadas tendo o concelho como unidade-base.

O regime democrático da Constituição de 1976 procurou inverter a tendência de centralização que se verificou no regime do Estado Novo, atribuindo um peso específico ao conceito de Poder Local e garantindo a sua autonomia, além de reforçar a sua importância enquanto divisão administrativa. Os presidentes de Câmara deixaram de ser nomeados por Lisboa e passaram a ser efectivamente eleitos pelos munícipes, com a participação dos partidos políticos e (recentemente) permitindo a participação de listas independentes. A lista independente mais notória foi a de Rui Moreira (Porto), o primeiro independente a tornar-se presidente de câmara numa grande cidade, em 2013.

Contudo, se a descentralização de poderes foi um passo no sentido de uma democracia mais profunda, muitas dúvidas se levantaram sobre a natureza democrática de inúmeras lideranças autárquicas. Muitos foram os casos de presidentes de Câmara que se eternizaram no poder durante décadas, levantando dúvidas sobre a exequibilidade de uma verdadeira oposição local caso o poder instituído assuma o controlo das dinâmicas locais. Nesse sentido, foi criada uma lei que limitava o número de reeleições permitidas, o que levou alguns presidentes a candidatarem-se em municípios vizinhos ou fazerem uma "pausa" para se candidatarem mais tarde (como foi o caso notório de Narciso Miranda em Matosinhos.)

Outros casos revelaram-se polémicos, quando diversos autarcas se envolveram em casos judiciais, como foram os casos de Isaltino Morais (Oeiras), Valentim Loureiro (Gondomar) ou Avelino Ferreira Torres (Amarante e Marco de Canaveses). O mais célebre terá sido o de Fátima Felgueiras (do município homónimo), que voou para o Brasil em vésperas de ser detida e voltou posteriormente para ser re-eleita, mantendo-se dessa forma no cargo.

Em todo o caso, as autarquias são um elemento incontornável da vida política nacional. A liderança das maiores câmaras (nomeadamente a de Lisboa) constitui um cargo de importância nacional, não sendo por acaso que Jorge Sampaio (Presidente da República) e António Costa (Secretário-geral do PS) tenham presidido à autarquia lisboeta.