A Justiça é o funcionamento do sistema judicial, composto por leis, tribunais, advogados e juízes - bem como por agentes da autoridade, capazes de conter a realização de crimes e proceder à detenção de criminosos - indispensável ao bom funcionamento das sociedades modernas. Um dos conceitos chave das democracias contemporâneas é o Estado de Direito: o princípio de que todos os cidadãos são iguais perante a lei e como tal devem ser tratados. O funcionamento dos tribunais, na arquitectura política da democracia, foi constituído como um dos três poderes, a par do legislativo (fazer leis) e do executivo (fazer cumprir as leis), assegurando a independência do poder judicial (julgar quem não cumpre as leis) perante os governos. Dessa forma, o juiz é, mais que um simples funcionário do Estado, um garante da normalidade democrática, ocupando um estatuto especial.

Em Portugal, uma sucessão de casos polémicos vieram colocar graves dúvidas, aos olhos da opinião pública, relativamente ao funcionamento da Justiça. Nos casos de grandes visibilidade mediática, não se tratou apenas do funcionamento lento dos processos, causado de forma óbvia pelo facto de os advogados envolvidos se dedicarem a esgotar todos os meios, recursos e possibilidades de forma a atrasar o desenrolar dos mesmos, mas também da impossibilidade última de se apurar uma verdade credível. Noutros casos, graves indícios de crime nunca foram julgados correctamente. Casos como o escândalo de pedofilia da Casa Pia de Lisboa, o caso do Freeport (com acusações de corrupção a José Sócrates, nunca provadas), o caso dos submarinos (com suspeita de irregularidades na atribuição da compra à alemã Ferrostaal por parte do Ministério da Defesa no tempo em que Paulo Portas era ministro), o caso Portucale, Universidade Independente, BPN, Maddie McCann (assumindo proporções internacionais), e muitos outros.

A forma como algumas figuras escaparam ou contornaram a justiça também contribuiu para a sua descredibilização. Foi o caso de Fátima Felgueiras, protagonista de vários casos burlescos, como o caso de se ter "retirado" para o Brasil depois de ter sido informada que estaria prestes a ser detida - tendo mais tarde exercido o cargo de presidente da Câmara de Felgueiras de modo a evitar a cadeia, e acabando por ser absolvida de todos os crimes de que foi acusada. Foi também o caso de João Vale e Azevedo, ex-presidente do SL Benfica, que fugiu para o Reino Unido e chegou a dar uma entrevista em directo a um noticiário da SIC, instando as autoridades para "o ir buscar", se pudessem - sendo que, nesse meio tempo e sendo pública a presença de Vale e Azevedo em Londres, um tribunal enviou 2 agentes da GNR a uma sua morada em Sintra de modo a confirmar, oficialmente, a sua ausência. (Vale e Azevedo viria a ser extraditado.)

Em 2014, a Justiça portuguesa pareceu tomar um novo rumo, pelo menos em termos mediáticos, muito por iniciativa do juiz Carlos Alexandre, nomeadamente a detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates ou o estabelecimento de Ricardo Salgado, ex-CEO do Gruo Espírito Santo, em regime de prisão domiciliária. Contudo, e mais uma vez, as dificuldades no desenvolvimento dos processos - e no estabelecimento de uma acusação, no caso Sócrates, o que levou ao esgotamento do período em que poderia ser retido em prisão preventiva, sendo enviado para casa em prisão domiciliária, voltam a colocar uma sombra sobre a real eficácia da Justiça em Portugal.