Mário Soares é, juntamente com Cavaco Silva, o político que ocupou os cargos mais importantes e durante mais tempo ao longo do regime constitucional democrático de 1976, sendo por consequência uma das figuras-chave do século XX português. Exilado por motivos políticos durante o Estado Novo, Soares foi um dos políticos mais influentes durante o PREC e os tempos politicamente conturbados que se viveram após o golpe de 25 de Abril de 1974. Apresentou-se como o principal líder do centro-esquerda na oposição a um eventual governo do Partido Comunista Português e de outras forças à esquerda. Os seus opositores acusam-no de ter sido o principal responsável de uma descolonização que não terá respeitado os interesses dos colonos.

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas (1951) e Direito (1957), aderiu desde a juventude aos primeiros movimentos do pós-guerra que contestaram Salazar e o regime do Estado Novo, como o MUD (Movimento de Unidade Democrática). Exercendo as profissões de professor e advogado, esteve sempre ligado à política, tendo chegado a ser membro do PCP, participando activamente nas campanhas eleitorais para a Presidência da República, apoiando Norton de Matos (1949) e Humberto Delgado (1958). Casou em 1949 com Maria Barroso, que viria a desempenhar igualmente um papel cívico de relevo, nomeadamente enquanto presidente da Cruz Vermelha.

Várias vezes exilado, foi na Alemanha que Mário Soares fundou o Partido Socialista (PS) em 1973, tendo regressado a Portugal imediatamente após o 25 de Abril. Ficou célebre o seu abraço ao líder do PCP Álvaro Cunhal, com quem viria a protagonizar um dos mais célebres debates televisivos da época. Líder do PS, Soares foi depois primeiro-ministro entre 1976 e 78 e novamente entre 1983 e 1985. Foi um dos principais proponentes da adesão de Portugal à CEE, tendo estado igualmente ligado às intervenções financeiras do FMI de 1978 e 1983.

Em 1986 protagonizou uma das campanhas mais interessantes para a Presidência da República, tendo de enfrentar a oposição de Salgado Zenha (seu antigo camarada, agora um dos rostos do PRD), do PCP (que se recusava a votar em Soares) e com Freitas do Amaral à direita. Ficou célebre a agressão de que foi alvo na Marinha Grande (bastião comunista) e que poderá tê-lo ajudado a captar simpatias junto do eleitorado. Passando à segunda volta, Soares contou com o apoio da esquerda para derrotar Freitas do Amaral. O socialista veio depois a vencer a reeleição em 1991, alcançando cerca de 70% dos votos. Nos anos finais da sua presidência, os seus desentendimentos com o primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva levaram a que este designasse o então Presidente como uma "força de bloqueio" à sua governação

Soares manteve-se ligado à política, não apenas através da sua fundação (criada em 1991) mas também através do comentário ocasional em revistas e jornais, ou da participação em conferências. Em 2005, não resistiu ao chamamento do Partido Socialista e apresentou-se como candidato às eleições presidenciais do ano seguinte. Soares acabou batido pelo seu camarada Manuel Alegre, embora Cavaco Silva tenha conseguido a vitória sem necessidade de segunda volta. Foi um dos mais fervorosos apoiantes de José Sócrates desde o momento da sua detenção em Novembro de 2014, não hesitando em referir, por várias vezes, que se trata de um caso de contornos políticos - e continuando a intervir de forma activa, mantendo uma vitalidade invejável para a sua provecta idade.