"Irrevogável" foi a palavra usada por Paulo Portas em Julho de 2013 para definir a sua saída do Governo, que acabou por não se concretizar, terminando mesmo com uma "promoção" ao cargo de Vice-primeiro-ministro. Foi apenas um dos muitos episódios que marcam a carreira deste político, jornalista e advogado nascido em Lisboa em 1962. Um percurso marcado desde logo pela família onde nasceu: a mãe, Helena, é uma economista e jornalista com relações familiares com o aviador Sacadura Cabral, e bastante conhecida pela sua frontalidade. O pai é o arquiteto Nuno Portas, membro de três governos no período pós-25 de Abril, onde teve um papel importante na definição das políticas relacionadas com a habitação. O irmão mais velho, Miguel (falecido em 2012) viria a ser um dos fundadores do Bloco de Esquerda e a meia-irmã, Catarina, tornar-se-ia numa das maiores promotoras da divulgação de produtos portugueses.

Não se sabe se a genética terá tido influência no caminho que Paulo Portas decidiu seguir, mas a verdade é que começou a dar nas vistas ainda muito novo: aos 15 anos já escrevia no jornal O Tempo, mas antes tinha já iniciado a sua atividade política, inscrevendo-se na JSD, com uma proposta assinada por Sá Carneiro, político que sempre admirou. A morte do líder do PSD fez com que deixasse o partido e a direção do jornal partidário.

O jornalismo e a política continuaram a fazer parte da sua vida e a primeira atividade serviria como um trampolim para a segunda. Em 1988 fundou, com Miguel Esteves Cardoso, o semanário Independente, que teve um profundo impacto na sociedade portuguesa. As temidas manchetes, em que o alvo preferencial era o Governo de Cavaco Silva, tornaram as sextas-feiras um dia fértil em notícias desconfortáveis para quem estava no poder. A entrada definitiva na política aconteceu em 1995, quando foi eleito deputado pelo CDS-PP, partido então liderado por Manuel Monteiro, com quem acabaria por se incompatibilizar. Chegou à liderança dos centristas em 1998 e ao Governo (em coligação com o PSD) em 2002. Foi Ministro de Estado e da Defesa mas, a chegada dos socialistas ao poder nas Legislativas de 2005 e os fracos resultados obtidos (menos de 10% dos votos), fizeram com que abandonasse a liderança do partido. Regressaria em 2007, após derrotar Ribeiro e Castro e, quatro anos depois, na sequência de uma coligação entre CDS-PP e PSD, voltaria ao Governo com o cargo de Ministro de Estado e Ministro dos Negócios Estrangeiros. O CDS-PP deixara de ser o "partido do táxi", conseguira eleger 21 deputados e tornara-se numa força partidária com força suficiente para apoiar ou contrariar o próprio parceiro de coligação.

Num período marcado por austeridade e pela intervenção da Troika, Portas não se inibiu de criticar as políticas do próprio Governo, entrando em conflito com Vítor Gaspar e com Maria Luís Albuquerque. O episódio da demissão irrevogável seria apenas mais um numa longa lista de polémicas que incluem também os casos Moderna, dos Submarinos e mais recentemente dos Vistos Gold. Embora o seu nome seja associado a estes casos, que são frequentemente referidos pelos seus opositores políticos, nada parece afetar a credibilidade de Portas. Grande admirador de cinema, certamente que veria na sua própria vida uma história capaz de inspirar um argumento cheio de suspense, altos e baixos e com muitos sound bytes.