Recentemente a minha família foi atingida pela tragédia, no momento em que um parente próximo nos foi retirado abruptamente, ainda jovem. Além da natural dor e sofrimento, a morte sempre abre as portas para uma pergunta difícil cuja resposta pode dar a alguns o necessário bálsamo para uma questão tão difícil. Aqui ficam algumas das minhas ideias.

Nunca é fácil aceitar a morte, é difícil quando ela leva um membro da família ou um amigo, mas é ainda mais difícil quando é uma pessoa jovem, sem problemas de saúde evidentes e, para tornar ainda mais inconcebível, quando este jovem morre durante um evento de desporto.

A morte é um tema difícil de nos relacionarmos, a maioria tenta evitá-lo como se fosse algum tipo de doença contagiosa ou algo que pode convocar os nossos piores medos apenas por sussurrar o seu nome.

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Eu entendo e talvez, até simpatize com tal atitude porque é um mecanismo de defesa tipicamente humano.

Vivemos constantemente dentro de uma percepção genética que intima à auto-preservação acima de tudo. Todos nós sabemos em face da nossa mente lógica que somos meros visitantes neste mundo. Alguns podem viver mais tempo do que outros, mas todos somos convidados e o nosso tempo na Terra é todavia limitado. Isto entra em conflito direto com a percepção genética mencionada, que promove a vida acima de tudo e proporciona uma falsa sensação (especialmente quando somos jovens) de imortalidade.

Este mesmo mecanismo torna muito mais difícil e complicada a aceitação da morte do que na realidade ela é, uma parte natural da vida. Nós, criaturas abençoadas com autoconsciência, não estamos equipados para lidar com a perda de alguém próximo ou do nosso eu.

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A noção de fim total e irreversível é estranha para nós, independentemente do que a nossa lógica dita, mesmo em situações em que esse fim não vem como uma surpresa, tal como na doença ou velhice.

A morte destrói os limites de um mundo que nos habituámos a conhecer à nossa maneira. A ausência de uma figura significativa é algo que requer adaptação, ajustes principalmente emocionais e cognitivos que são geralmente os mais difíceis de alcançar, especialmente quando o falecido era parte do nosso mundo por muitos anos e era uma presença contínua na nossa vida diária.

Então como lidar com algo que desafia a nossa existência, algo que contradiz abertamente o nosso entendimento genético? A única resposta que pode dar algum tipo de consolo é "Fé". Não me refiro necessariamente à fé religiosa, apesar de uma pessoa com fortes crenças religiosas ser capaz de aceitar mais facilmente se convencida de que um poder superior tinha uma intenção para essa pessoa que foi chamada pelos desígnios de sua suprema sabedoria.

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Outros podem encontrar a fé sabendo que a morte apaga todas as dores, os nossos entes queridos não sofrerão mais e, talvez, em alguma realidade lógica ou metafísica encontrar-los-emos novamente.

A melhor maneira de lidar com a morte de uma pessoa amada passa apenas por lembrar como ela era, lembrar como a sua presença enriqueceu as nossas vidas e transformou a sua qualidade para melhor, sem nada pedir em troca, bastando-nos ficar agradecidos pelo tempo que dividiram connosco.

Em memória do meu primo Orlando.