Durante muito tempo tivemos um guerra civil na Síria, onde “insurgentes” combatiam o governo do regime do sr. Assad. Depois, soubemos que alguns desses insurgentes se chamavam a si mesmos Estado Islâmico do Iraque do Levante. Agora, há poucas semanas, soubemos que esses mesmos insurgentes tinham ocupado de forma semi-permanente (ou permanente?) o norte do Iraque, e que já se chamavam Estado Islâmico. E depois, no primeiro dia do presente Ramadão, o sr. Abu Bakr Al-Bagdadi declarou-se califa e anunciou o regresso do Califado, numa declaração solene transmitida para todo o mundo (em diferido) desde Mossul.

É justo, portanto, que chamemos a este novo país o Califado, pois é assim que ele se chama a si mesmo. Já quanto a saber se o sr. Bagdadi vai ser reconhecido como Califa pela “sunna”, isto é, pelo bilião e tal de muçulmanos que há no mundo, é ainda cedo para saber.

O Califa é o título do líder religioso e político dos muçulmanos. Sabendo que, poucos anos após o falecimento do profeta Maomé, a comunidade religiosa se separou primeiro com a heresia xiita e um pouco mais tarde com a divisão do império islâmico em várias entidades políticas, o título tem sido usado de forma não inteiramente consensual. Até ao início do século XX, o sultão do Império Otomano (Turco) era também o califa e um dos mais consensuais, pois o Império abrangia a maior parte das regiões muçulmanas. Com a extinção do império, nenhum outro líder islâmico usou o título - e o regresso do Califado, simbolizado por um estado islâmico que varresse os vários estados existentes no Médio Oriente, tem sido uma das bandeiras eleitorais da Alcaida.

O facto de o sr. Bagdadi ter cortado relações com a Alcaida - aparentemente por divergências na forma de actuar relativamente à Síria - tornou-o inteiramente autónomo em relação a qualquer outra entidade política ou religiosa. Assim, dar o passo seguinte faz sentido, pelo menos em termos de marketing político: o Califado está restabelecido, tal como pretendem os apoiantes de Bagdadi dentro e fora das suas fronteiras - quantos políticos por esse mundo fora conseguem cumprir as expectactivas dos seus eleitores desta forma? - e se para quem está fora parece absurda a alegação de que Roma e a Península Ibérica deverão fazer parte do Califado no futuro, não podemos esquecer que se trata de mensagens para os apoiantes, mais que para o exterior. Além disso, o próprio nome é também bem mais simples que os vários nomes anteriores.

Mas, qual será o potencial - ou os objectivos reais - em termos de o Califado se substituir à Alcaida enquanto mentor do terrorismo religioso internacional?